Sempre soube que chegaria o dia em que poderia abraçar o
horizonte, contemplar e ascender ao céu,
espalhar-me entre as nuvens algodoadas, e no silêncio da realidade palpável e o
devaneio, dar asas ao que trago dentro e voar.
Sempre soube que sou uma pessoa com asas. Não sou do tipo
que cria raiz. Há que deixar ir. Há que voar. Quem deixar ir dá às pessoas uma
escolha, capacita e liberta.
Observe o voo de um pássaro. Jamais irá vê-lo carregando,
puxando ou arrastando outro pássaro consigo, pois ambos não seriam capazes de
voar. Ambos cairiam ou teriam muita
dificuldade para continuar.
E aqui estou eu, seguindo no meu voo independente, solo e
feliz. Abraçando a cada novo dia o horizonte que se apresenta - e sempre que o
horizonte me sinalize o limite do olhar, sei que o mundo ali não se esgota.
Estende-se muito além daquilo que eu possa enxergar.
E assim é. Ascendi ao céu e voei. Nos últimos oito
anos viajei o mundo. Este mundo tão
incrivelmente vasto, que às vezes, quase parece desrespeitoso sobrevoar oceanos
e montanhas, desembarcar em lugares onde era noite quando no meu ponto de
partida era dia. Lugares onde era amanhã
ou ontem.
As experiências de estar em trânsito sempre me fascinaram.
Sou uma entusiasta das viagens. Me inquieto desde a poética da geografia, a
escolha do destino, o momento do deslocamento, o durante, o reencontro com o
lugar de partida, e o depois, quando a memória negocia e registra todas as
coisas que meus olhos viram. Imagens e memórias de um mundo multicolorido,
multifacetado, às vezes absurdo, às vezes violento, às vezes plácido como um
lago.
E foram viagens incríveis. Conheci quatro
continentes e sessenta e cinco países. Até agora. Foram horas de voo e tantas outras de
espera em aeroportos. E quem viaja sabe o quanto essa espera pode ser tediosa e
cansativa se não soubermos encará-la como um bônus, coisa que aprendi
rapidinho, já que a espera me dava oportunidade de explorar lugares e observar
pessoas. Uma maneira de transformar as longas esperas em algo mais suportável,
já que os aeroportos oferecem uma oportunidade única, pois ali circulam pessoas
de todos os cantos do planeta. Pessoas de diferentes culturas e idiomas que se
mesclam e se confundem entre uma multidão.
Considerando que os aviões encurtam consideravelmente os deslocamentos, são seguros e acessíveis economicamente, os aeroportos atingem um número maior de pessoas. São palcos de despedidas, reencontros, estresse e muitas histórias inusitadas. Situações e personagens únicos, que as vezes não se vê em nenhum outro lugar. E melhor, contando com a proteção intrínseca à condição de turista, essa carapaça que nos protege de um contato mais íntimo e profundo com o outro, mas que nunca me impediu de imaginar como são suas vidas, de onde vem e para onde vão. Também pude testemunhar momentos de alegria e tristeza, afetuosidade e melancolia, abraços e sorrisos, lágrimas e despedidas.
Sem dúvida é um local cheio de emoções. Enquanto eu comemorava as poucas horas que me separavam do tão sonhado e desejado destino, outros sofriam com o momento que antecedia um adeus. Porque éramos pessoas diferentes e com motivos diferentes para estarmos ali.
Éramos pessoas anônimas que passávamos a ser notadas por
nossas manifestações, expressões, vestimentas e idioma. O que conecta
diferentes pessoas em diferentes situações, tirando o outro de um anonimato
relacionado à multidão que, num contexto geral, desumaniza, mas que ali, às vezes aproxima.
Mas o melhor, a cereja do bolo é aquele olhar meio perdido através da janela do avião. A última versão de nós mesmos, porque jamais retornamos o mesmo. Viajar é uma delicia. A gente escuta, observa e aprende. Volta cheio de ideias, historias e imagens. Mas a verdadeira experiência tira mais que fotos. Saca também espaços, reorganiza sentimentos e redesenha outros tantos contornos, externos e internos.
Viajar é bom, mas voltar é ainda melhor, porque felicidade é
a gente que constrói. Aqui, ali ou em qualquer lugar.
Denise Oliveda
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