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É preciso (apenas) viver


Passaram-se dois anos. Dois anos sem escrever. Dois anos de completo e total abandono.

Depois da pandemia decidi apenas viver. As experiencias e aprendizados me motivaram a seguir em frente, a crer que é possivel recuperar algo precioso depois do caos. O confinamento e a angustia me mostraram que, às vezes, é preciso deixar de lado tanta obstinação e apenas viver. Mesmo quando viver signifique um risco, os dias se mostrem mais áridos, a fome desapareça entre rótulos e embalagens, o ansiolítico passe a ser um escape, e o isolamento um silencio, ainda assim, sempre encontrarei coragem suficiente para descer até as profundezas e voltar. Porque essa tarefa delicada e complexa, permeada de oscilações e fraturas, é também, vida que flui.

Às vezes, esquecemos que a existência não é linear. Que brisas leves ou ventos súbitos podem mudar nossas órbitas de lugar, mudando nossos pontos cardeais com a mesma precisão de uma bússola competente, pois desconhecemos a força e o empenho do acaso, ou destino, se assim preferes.

Sobrevivi.

Sobrevivi suplantando tudo o que deve ficar para trás para seguir adiante. Sobrevivi agarrada a qualquer fio de vida que pudesse atribuir sentidos, mesmo que tênues. Sobrevivi a preocupação pela sobrevivencia das pessoas que amo e todas as angustias ligadas ao sentimento de finitude, quando eu nem sequer podia imaginar o futuro.

Sobrevivi a alegria esfumaçada pela falta de perspectiva de uma visão que  apagava-se, dia após dia, de um corpo que se debilitava a cada momento, mas que ainda era capaz de pulsar e segurar nas mãos o instante que lhe escapava por entre os dedos.

Sobrevivi ao medo que se traduz na incerteza gerada por um planeta povoado por vírus e bactérias que, de uma hora para outra podem comprometer seu balanço e nos extinguir, por um simples capricho da evolução. Sobrevivi ao vendaval que sacodiu minhas estruturas, mexeu com meus sentimentos e desorganizou toda minha vida. 

Sobrevivi porque busquei formas de viver quando a vida, de muitas maneiras, estava em suspenso devido ao isolamento. Sobrevivi ao confinamento absoluto, um tempo solitariamente acompanhado. Um tempo lento, denso e trágico e vertical.

Viver é um risco, porém, apesar de todas nossas falhas e medos, ainda assim, sempre encontramos coragem suficiente para seguir. E, às vezes, é preciso cair fundo e colidir, para só, então, entender que a vida não é uma via de mão dupla. Por isso se faz necessário lembrar o motivo pelo qual se vive. Dia após dia. Seja transbordando a emoção dos dias difíceis, ou com a genuinidade do contentamento dos instantes alegres, mas, acima de tudo, assumindo nossa própria fragilidade quando se está imerso em um grande lamaçal.

A pandemia foi um grande trauma. Quem perdeu familiar não pôde assistir aos funerais, tão pouco receber um abraço, um conforto. Tudo parecia ser tratado de forma objetiva, racional, longe da vista e do coração, como se houvesse um modo higiénico de lidar com o assunto.

Todas as manhãs eu acordava e sabia que a vida, de muitas maneiras, estava em suspenso. Mas eu mantinha meus objetivos e projetos. Sempre soube que havia muita vida pela frente, embora a existência como nós a conhecíamos estivesse interrompida. Reconhecer e aceitar minha fragilidade mostrou-me que o momento pedia transformações. 

A vida é cíclica. Assim como as noites chegam a cada final do dia, e o sol nasce a cada manhã, até mesmo na amargura pode-se encontrar um quê de graça que brota da ironia, e da sagacidade com que se vê a vida. Porque cada um escolhe como quer viver cada problema.

Volto.

Por que me fui por dois anos? Talvez porque a vida se mostrou tão problemática durante e pós-pandemia, que me esqueci de refazer o caminho de volta. Mas, à medida que a vida se recompõe, aqui estarei. Entre altos e baixos, aqui estarei.

Estou viva, afinal, o que me faz pensar o inevitável: que não só os outros passam por mim, mas que eu também passo pelos outros. Porque tudo na vida passa e se vai, especialmente as pessoas, e, inclusive eu. E esta, talvez, seja uma das reflexões mais duras sobre a dor de quem fica.

 

Denise Oliveda

 

 

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