Não quero mais nada que me machuque ou faça sofrer...




Depois de muitas tentativas frustradas, hoje finalmente decidi: Não quero mais nada que me machuque ou me faça sentir desconfortável. E a consequência imediata dessa minha decisão, foi uma bolsa cheia de sapatos que já não usava a mais de um ano, mas que por um motivo ou outro não conseguia me desapegar. Dava sempre uma nova chance. Insistindo em superar o incomodo.

Mas já estava mais do que na hora de passá-los adiante, até porque não a razão lógica para crer que o que incomodou hoje será confortável daqui a alguns meses. Por isso não há que insistir naquilo que ultrapasse qualquer senso prático e objetivo. Até porque não sou uma daquelas mulheres chinesas, nascidas em famílias de classe alta da China do século XIV ao inicio do século XX.

Porque essas sim, sabiam literalmente onde apertava o sapato, pois durante séculos sofreram com um longo e doloroso processo de amarrações realizado em seus pés a partir dos três anos de idade. Assim se transformariam nos delicados e deformados Pés de Lótus, a parte mais erótica do corpo de uma mulher, aos olhos dos membros daquela sociedade. 
Sendo assim, o flagelo do corpo se transformava então em objeto de desejo.

Um desejo relacionado a um diminuto e deformado pé, coberto por belos e delicados sapatos que seriam usados pelo resto da vida daquelas mulheres, inclusive para dormir. Entretanto, por aqui também já fizemos algumas barbaridades em nome do design e elegância não é mesmo?

Quem nunca saiu com um sapato apertado, onde os dedos ficavam praticamente amontoados devido ao bico tão afilado? Quem nunca se verticalizou ao ponto de ter que fazer malabarismos para se equilibrar em cima de saltos altíssimos? Quem não tem alguma deformidade nos pés, calosidades ou unhas encravadas?

Mas felizmente a busca agora é por conforto. Ao menos para mim.  Sendo assim, o reinado dos sapatos de saltos com mais de dez centímetros está seriamente ameaçado. Mas não por completo, confesso. Ficarão cada vez mais restritos a ocasiões especiais. Mas sempre me lembrando de levar uma rasteirinha, por se acaso...