Todas as estrelas do céu, vivencias infantis e algumas reflexões...




Alguma vez você parou e observou de forma atenta e sensível uma criança brincando ou escutando uma história? E aí, o que viu?

Ontem recebi em minha casa o tão esperado livro, "Todas as Estrelas do Céu", do querido João Antonio Ventura, amigo aqui do blog. E assim que o tive em mãos, abri e iniciei a leitura. 

São trinta e cinco páginas destinadas a crianças de sete a nove anos, mas te conto que a leitura me pegou. E pegou porque me fez iniciar viagem por minha infância, período de tantos significados e sentidos, onde tive a oportunidade de brincar, sonhar, imaginar, fantasiar, criar, experimentar, trocar e viver no meu mundo de faz-de-contas, pois, para minha sorte, nasci numa época em que a brincadeira era um direito garantido as crianças. E lendo o livro do João me peguei refletindo sobre o grande valor do brincar e imaginar, coisas tão nobres na infância e recurso importantíssimo na construção de conhecimentos e desenvolvimento, pois é através do encanto da fantasia, do faz-de-conta, do sonhar e do descobrir que a criança explora seu mundo, descobre os elementos externos em si, exercita a socialização e se desenvolve física e mentalmente.

E pensar que nos dias de hoje as atividades lúdicas e espontâneas tem espaço cada vez mais limitado, me entristece. E quando ocorrem já nem surtem efeito, pois como competir com tanta parafernália eletrônica? Lembro de meu neto quando ainda bebê já conhecia a função de várias teclas e comandos de seu tablete. Sim, ele tinha um tablete só para ele. E isso de certa forma me assusta, pois vejo crianças sendo transformadas em miniaturas de adultos, reduzidas a seguir uma rotina eficaz só para os adultos, porque óbvio que é muito mais cômodo dar um aparato eletrônico e cheio de cores, imagens, luzes e sons, ao ter que sentar-se para brincar ou ler - porque o primeiro contato da criança com a leitura é feito através da voz da mãe ou outro familiar. E quando isso ocorre, seja qual for à história, curtinha ou não, o narrador tem que contá-la com encantamento e tentar passar emoções verdadeiras, criando um clima para que a criança vá construindo suas expectativas ao longo da história.

Mas isso requer tempo, paciência e dedicação, coisa que os adultos não possuem mais. Então tudo se resolve com tecnologia, que pode até parecer bem mais atrativa e interativa do que um livro. Mas o que faz sentido para os adultos passa longe do que uma criança realmente necessita. Ou seja, elas estão sendo privadas do seu direito de sonhar, criar e imaginar, porque vivemos numa sociedade de produção capitalista, o que tem levado não só as famílias, mas também as instituições educacionais a desenvolverem um modelo de educação massiva, confundindo jogos didáticos com brincadeira. Mas uma coisa é bem diferente da outra. No jogo didático é o adulto quem cria as regras, comanda a atividade e define o objetivo. Sei que seu valor como instrumento de aprendizagem é indiscutível e que a criança realmente pode aprender com ele.  Mas ele não substitui a brincadeira que é organizada pela própria criança de forma espontânea e autônoma.

Ela precisa do mundo do faz-de-conta.  Porque quando a criança brinca - e o adulto não interfere - muitas coisas acontecem. Ela mergulha em sua atividade lúdica e isso provoca fenômenos onde se reúnem todas suas potencialidades num exercício mágico e prazeroso. E quanto mais a criança mergulha, mais exercita sua capacidade de concentrar a atenção em descobrir e criar. 

Sem brincar uma criança não vive a sua infância. Sem sonhar também não. Brincando ela recria o mundo e refaz os fatos, mas não para mudá-los ou simplesmente para contestá-los, mas para adequá-los aos filtros da sua compreensão. E a nós, avós, pais, irmãos e professores fica a importante tarefa de estimular a imaginação da criança, seja através de brincadeiras ou leituras como a do livro, "Todas as Estrelas do Céu", que assim que possível irei compartir com meus netos Miguel e Lorenzo, pois sempre acreditei que a leitura gera um efeito de liberdade, seja para quem lê ou escuta, já que ambos mergulham em um mundo onde o limite é a imaginação de cada um. E compartir momentos assim, em família, além de prazeroso é indispensável à saúde emocional e intelectual da criança.

Porque a ludicidade é um aspecto que merece a nossa atenção. É o momento de expressão mais genuína da criança. Um direito e um exercício da relação afetiva dela com o mundo, as pessoas e objetos. Por isso se faz tão importante que tenhamos tempo e criemos oportunidades de qualidade, mesmo quando nos vemos comprometidos entre obrigações e exigências laborais.

Brincar, sonhar e emergir nesse mundo do faz-de- conta juntos, só reforça ainda mais os laços afetivos. É uma manifestação do nosso amor à criança. Momento mais rico e estimulante do que qualquer aprendizado.