Portugal, um amor de viagem...



Considerados países irmãos por ambos terem a língua portuguesa como via de comunicação, -apesar dos portugueses possuírem um léxico particular-, Brasil e Portugal manifestam muitas outras similaridades em vários aspectos. A "pátria-mãe" do Brasil, único país europeu de língua portuguesa e um dos melhores custos-benefícios do Velho Continente é também lar de milhares de brasileiros e imperdível não só pelas belas paisagens e a fluidez do idioma, mas também pela fluidez nas relações, já que o português é, sem dúvida, muito amável e amigável.

Um país magnífico que eu já havia visitado anos atrás, mas que agora retornava com uma nova proposta: Quatro pessoas, um carro e muita disposição para percorrer um longo caminho. Foram quilômetros de puro prazer onde pude de fato conhecer bem melhor Portugal, porque nada se compara a viajar assim. Pegar a estrada tornou nossa experiência ainda mais enriquecedora, pois no conforto do nosso carro e na lentidão dos quilômetros e quilômetros de estrada, pude observar que esse pequeno país tem muito mais para oferecer do que o seu tamanho possa aparentar.

E se engana todo aquele que pensa em Portugal apenas como um ponto de passagem, já que está a apenas duas horas e meia do norte da Europa. Sendo assim, muitas vezes é eleito como o primeiro ou o último de uma viagem maior a Europa. O que é uma pena, pois além de ser um país belíssimo, cheio de praias magníficas, parques naturais e reservas incríveis da biosfera, é também um dinâmico destino cultural e gastronômico.

E foi sabendo disso que decidimos explorá-lo ao sabor dos nossos instintos, sem sermos condicionados por nenhum guia de viagem, pois somente assim, de um jeito independente é possível descobrir preciosidades que não nos são apresentadas em nenhum pacote turístico.

Porque o mundo na sua imensidão é, por si só, uma estrada sem fim. E nada melhor que viajar para descobrir as afinidades e multiplicidades dos povos, suas culturas, singularidades, crenças e esperanças. E essa foi uma viagem exatamente assim.

Em nosso caminho encontramos estradas bem pavimentadas que nos permitiam percorrer o país em segurança de norte a sul, mas algumas vezes desviávamos por caminhos estreitos e empoeirados de uma beleza bucólica impressionante, o que só confirmava nossas expectativas, pois ao termos um mapa aberto em nossas mãos, inúmeras opções de caminhos nos surgiam.

E o fizemos sem pressa. E sem pressa também chegávamos e partíamos. Parávamos onde nos ocorria. Comíamos do que nos ofereciam.  Sorríamos muito e partíamos sempre com aquela vontade de ficar mais um pouquinho. E assim, nesse ritmo ditado por nós, finalmente eu tive a oportunidade de conhecer Portugal como sempre desejei.  Aos poucos. Sem aquela pressa típica do turista e a mesma que tive anos atrás. E a verdade é que quanto melhor o conhecia, mais me atraía. Desde a Lisboa das sete colinas, cidade sempre lembrada pelos brasileiros na letra do clássico fado: “Lisboa, velha cidade, cheia de encanto e beleza” a cidade que se esconde atrás das paixões assolapadas e dos amores à primeira vista, de onde partiam e às vezes regressavam as caravelas cinco séculos atrás, quando os portugueses se lançavam a aventurar pelo mundo, descubro hoje uma cidade mais alternativa e ainda mais encantadora: A Lisboa dos lisboetas que vivem hoje mais do que nunca uma paixão por sua cidade. Uma cidade que respira vida, modernidade e juventude sem perder de vista suas tradições.

Exatamente o que ocorre nos pequenos povoados, verdadeiros oásis de paz, onde a evocação do passado convive com a época atual. E assim, numa longa cadeia de transmissão, de geração em geração eles preservam a identidade cultural do seu povo e lugar.  

E hoje, já em Buenos Aires, ao lembrar-me daqueles encantadores lugares minha memória vai ganhando as difusas dimensões de uma recordação e meus olhos se perdem nos recortes das serras, do azul do céu e mar, do verde dos campos, das casas de xisto com suas vidraças limpinhas, adornadas por cortinas branquinhas e arrematadas com laço de fita, do comércio reduzidíssimo e que imediatamente nos remetia à décadas atrás, pois ainda mantinham o encanto do mobiliário original - enormes balcões de madeira, recheados de mercadorias empilhadas até o teto, impecavelmente expostas em prateleiras e protegidas por portas de vidro. Um cenário raro, mas com muita identidade. Lugares secretos e tranquilos onde ainda se pode, ao entrar em um bar tirar um dedinho de prosa e degustar os tradicionais rabos de bacalhau ou o delicioso pastel de nata enquanto se decide entre tomar um café de saco ou tirado da máquina.

Mas ainda havia muita estrada para percorrer e tantos outros lugares para conhecer.  E a cada quilômetro rodado uma paisagem mais linda que a outra surgia. E eu, com a máquina fotográfica em punho me apressava para registrar os campos agrícolas, os vinhedos, os povoados medievais encarapitados no alto de colinas, os frondosos salgueiros que emolduravam os sinuosos leitos de rios - os rios em Portugal geralmente são lisos e mansos, só perturbados pelos ocasionais barcos de cruzeiro ou pelos esforçados apreciadores da arte do remo - os casarios, edificações de elevada beleza e relevância arquitetônica, os pelourinhos, as capelas centenárias, os lavadouros público, as ruelas empedradas, enfim, muito para registrar, mas muitas vezes em um espaço limitado para fotografar. Mas mesmo assim, feliz por cada imagem que consegui, apesar de ter perdido muitas outras, pois era impossível fotografar a tudo com o carro em movimento.

Mas o que não consegui fotografar está registrado em minha mente e coração. Um testemunho não só como registro e evocação do meu carinho por esse país, mas também como processamento de lembranças de dias tão especiais, numa conjugação perfeita entre quatro pessoas e um lindo projeto.

E Portugal foi somente um, dos três destinos desse nosso projeto. E eu volto dessa viagem a Portugal cheia de imagens e maravilhosas sensações. Mas se pudesse escolher somente uma, certamente seria o entardecer. Talvez por uma questão de luz. A luz de Lisboa.