Privacidade - Qual o lugar que ocupa ou desocupa?





Todos os dias, milhares de pessoas compartilham suas dores nas redes sociais, o que prontamente é acolhido pelo olhar “compassivo e solidário” do outro. Mas qual é a relevância de observar com lupa a dor alheia? Me parece curiosa essa solidariedade na desgraça, mesmo sabendo que hoje tudo é meticulosamente pensado para caber no olhar do outro. 

O que até pouco tempo se escondia, hoje se escancara. As pessoas parecem ter esquecido que o sofrimento é uma coisa íntima e, por isso, na intimidade do nosso íntimo deveria permanecer. Um cuidado fundamental para que possamos manter a vida privada a salvo do escrutínio público, esse controle social absurdamente exigente e violento. 

Exatamente o que vem ocorrendo com uma jovem blogueira que luta contra um câncer raro em estágio avançado, compartindo com seus milhões de seguidores os estágios de sua doença. 

Ocorre que nos últimos dias seu quadro agravou-se e ela foi hospitalizada, o que causou seu afastamento temporário em seu perfil e uma avalanche de mensagens cobrando sua presença. Ainda na UTI, fazendo uso de aparatos como respirador, monitores, sondas, bomba para infundir medicações e outros suportes necessários para sua sobrevivência, ela gravou um vídeo explicando o óbvio: o agravamento de sua doença e todas as suas implicações físicas e psicológicas e, por isso, o motivo de seu sumiço. 

No vídeo ela pedia que as pessoas respeitassem e entendessem o motivo pelo qual os havia deixado sem noticias, pois a coisa chegou a tal ponto que passaram a escrever mensagens ofensivas e agressivas a sua família pela falta de noticias. 

Então me pergunto: Diante da falta de perspectiva de um corpo que se debilita a cada momento, mas que ainda é capaz de pulsar e segurar nas mãos o instante que lhe escapa, buscar no outro algum conforto diante de experiências limites realmente ajuda ou toda essa exposição torna tudo ainda mais terrível, pois ela não só perdeu o direito a sua intimidade como também contribuiu para isso? Num colaboracionismo ingênuo, penso, já que a exibição explícita do sofrimento nem sempre nos engrandece, sendo que às vezes nos torna objeto de escárnio e agressões, exatamente como vem ocorrendo com ela.

Por isso, temos que nos fazer responsáveis de tudo aquilo o que compartimos, principalmente quando a exposição do sofrer vem ganhando novos contornos e um poder de visibilidade e resultados antes não imaginados. E a motivação para tanta audiencia passa desde a curiosidade mórbida á idéia de solidariedade, o que legitima tanta gente a produzir performances destinadas a alimentar ainda mais esse tipo de exposição. 

E assim, o que deveria ser privado e na sua intimidade permanecer rapidamente converte-se em algo onde todos têm a possibilidade de transcender publicamente, não levando em conta que o direito ao esquecimento é tão importante quanto ao de ser lembrado. Ao menos para mim, pois não gostaria de ser lembrada e associada a tanta dor e  sofrimento. Muito menos que minhas imagens estivessem à disposição dos usuários da internet em qualquer mecanismo de busca. Porque a imagem estará ali para sempre, pois na internet não há prescrição ou validade dos arquivos. Pelo contrário. É como se fosse um livro aberto onde mecanismos e algoritmos dão cabo de preencher lacunas, reproduzindo a qualquer momento tudo aquilo que já estava sendo esquecido. E é só. Porque não há possiblidade de retorno. A não ser a de viver na memória dos outros através das boas lembranças.

Mas a tendência, dizem, é que comecemos a fazer um movimento de retomada ao privado, compartilhando as coisas mais íntimas com grupos menores de pessoas, como familiares e amigos mais próximos através de aplicativos como WhatsApp, por exemplo. Tomara.