Hoje não quero falar com ninguém...





Hoje alguém me ligou. Cansada e sem vontade de falar, disse a pessoa que atendeu que dissesse que eu não estava. E o que deveria ter-se encerrado ali, continuou. Ela, ignorando o que havia lhe dito, retorna e diz: Parece-me urgente. Acho que você deveria atender.

O que foi que ela não entendeu quando eu disse que não queria atender? E por que ela achou que poderia interpretar o que estava ocorrendo do outro lado da linha? Só porque o fulano, provavelmente ofendido por não receber mais a mesma atenção, exigia ser ouvido?

O fato de alguém querer muito a minha atenção não me obriga a estar disponível no momento em que ela queira. Muito menos aceitar sua aproximação. Acho fundamental que nos dias atuais, onde a hipocrisia permeia nossas relações, que entenda-se que isso é um direito legítimo de cada um. Ou seja, não sou obrigada a falar com quem quer que seja, mesmo que essa pessoa me venha oferecer o melhor de si - até porque as belas intenções também andam cheias de egoísmo.

E o fato dela me amar também não a autoriza, pois não pode, apenas por me amar, acreditar que eu tenha que estar disponível e sempre disposta a ouvi-la quando bem entender. 

Não sei porque é tão difícil entender que há que ter cautela no relacionamento com o outro. Com o direito do outro. Esse direito sagrado em que cada um pode avaliar e decidir sobre o que for. Porque não basta ter vontade de falar. É preciso que o outro tenha vontade de ouvir. 

E é certo que todos admiram as pessoas que estão sempre prontas para ouvir. Porém isto que é admirado nem sempre é verdadeiro, pois só é genuíno quando essa vontade é própria e não acontece na imposição. Aí sim, pode até tornar-se valioso.