Mulher - Entre perdas e danos...




Para ser mulher num mundo onde o amor é banalizado, e respeito não existe como valor, é preciso lutar para coexistir nesse universo ainda tão cheio de machismos e achismos prepotentes. O que só nos faz perder, mais e mais a cada dia...

Perdemos nas trocas desiguais, no desencantamento e tristeza das pequenas tragédias cotidianas, cenário real e fatídico em que vivem muitas mulheres. Na passada de mão sem consentimento, na piadinha sem maldade, no vagão exclusivo do metro, nos compromissos laborais, domésticos e maternais que são praticamente intermináveis, convertendo-se nos dramas, torturas e alegrias do nosso dia a dia. Na cobrança pela perfeição que nos encurrala diante a impossibilidade de viver conforme nossos interesses, pois há que se viver de acordo com o que os demais esperam de nós.

Perdemos quando somos reconhecidas somente como um corpo de procriação ou de prazer, pronto para ser devorado como se fora um fast food. Quando somos vistas como objeto, e não sujeito pelas lentes do machismo nosso de cada dia. Aliás, lentes que refletem um perfil muito estereotipado: a mulher puta, a mulher mãe, a que sofre por amor, a divorciada, a solteirona, a submissa, a vingativa, a cachorra, a que apanha e se bobear até gosta, a que perdoa e logo vai esquentar seu prato, dá um beijo em seu retrato e com um sorriso lhe abre os braços para um abraço.

Perdemos quando não há coragem de partir, antes que o outro traga a tona o pior de nós. Quando nos diminuímos para caber dentro de uma dinâmica de relacionamento que não contempla nem metade da nossa grandeza, e mesmo assim, vivemos com o pouco que nos é dado, não conseguindo sequer identificar o que nos faz ficar.

Perdemos quando já nos sentimos exaustas de tudo suportar e adequar, esquecendo de que, para tudo há um limite. Quando tentamos justificar a covardia que nos paralisa e corrói, contando a nós mesmas histórias e meias verdades que geralmente começam com uma promessa ilusória, de que em nome do amor, tudo pode.

Perdemos quando o outro não consegue perceber a beleza que existe em nossa inadequação. Quando não entende, que ao nos moldarmos com o propósito de sermos aceitas, mais nos alienamos, e menos autenticas nos tornamos, aniquilando toda a possibilidade de vivermos com improviso, espontaneidade, imperfeição e alegria.

Perdemos filho, e até o próprio nome quando nos tornamos mãe. Perdemos na solidão das dores que brotam de nossa alma, que aclama por aceitação e liberdade. Perdemos ao tentar dar sentido ao que não têm, esperando o que talvez nunca aconteça, o que não conseguimos nomear, não conseguimos validar, as necessidades não atendidas, adormecidas, camufladas e já quase esquecidas.

Perdemos quando passamos a nos preocupar se a saia está curta demais, o decote exposto demais, a risada alta demais, o olhar provocante demais, o convite explícito demais, o gesto vulgar demais, a conversa sugestiva demais, a maquiagem chamativa demais, o comportamento oferecido demais, porque é isso o que irá determinar nossa reputação diante dos demais.

E perdemos quando somos sabatinadas, pré-julgadas, rotuladas, perseguidas, questionadas e analisadas. Porque ser mulher, por si só, tem repercussão.