A cada dia se faz pior reconhecer o bem...



Em "O Mal-Estar na civilização", Freud assinala que uma das pedras fundamentais na construção da civilização, foi a máxima, "ama o próximo como a ti mesmo". Mas aí me pergunto: Até onde vai a nossa hipocrisia, quando se trata do amor ao próximo? Uma expressão no mínimo estranha em seu próprio conteúdo, já que nos impõe amar o outro como um dever, soando como uma regra moral, quando na verdade nem todos são merecedores do nosso amor.

E num mundo onde a desordem se instala em nossa sociedade, transformando-a nessa selvageria, no mínimo se faz absurda essa exigência de amar o próximo como a si mesmo. Um próximo qualquer. Simplesmente por ser um próximo.

E essa exigência me parece ainda mais incômoda quando, com frequência não encontro a mínima evidência de que o outro, esse estranho a quem devo amar, me ame ou demonstre por mim a mínima consideração. Inclusive, não hesitando em me prejudicar. Sendo assim, não me sinto na obrigação de restituir ao outro, algo que não lhe pertence. E muito menos vou amá-lo por obrigação, pois penso que todo esse discurso de compaixão, amor, igualdade e tantos outros sentimentos açucarados e muito bem escritos nos livros e cartilhas, hoje nada mais são, que superficialidades e mentiras convenientes. Não passam de formas de expressão por parte daqueles que buscam tornar possível e real esse mundo tão idealizado, mas que na verdade já não existe.

Por isso basta de tanta hipocrisia. Há que ver o outro como ele realmente é. Com todos seus defeitos e qualidades. Porque ninguém tem obrigação de amar a ninguém, mas sim, de nos fazermos merecedores desse amor, respeito, igualdade e consideração pelo qual tanto clamamos, enobrecendo-nos e distinguindo-nos através do exercício da livre escolha, pois nascemos livres e dotados de dignidade. Mas infelizmente nem todos conseguem desenvolver tais condições ao longo da vida, preferindo a perda da virtude, e valores como orientação da sua própria existência, motivo pelo qual há tanta gente decaída entre a miséria, a delinquência e a solidão. E pior, responsabilizando e atribuindo seus erros e más escolhas ao infortúnio, quando na verdade não é nada externo o que lhes arrebata a razão, mas sim, suas motivações interiores, quase sempre movidas por vícios e rancores, o que só corrompe e cria ainda mais obstáculos à suas vidas.

E esse é o outro, o próximo que eu não posso amar. Aquele que não se permite nortear pela honestidade, prudência, a vontade justa, as expectativas razoáveis e compatíveis com a sua realidade, e a constância e perseverança de ânimo para seguir de forma justa e honesta. Uma pessoa incapaz de assentar sua dignidade em uma base racional, utilizando suas reais possibilidades para afrontar a vida. Sendo assim, esse outro, o próximo que não consigo amar e respeitar, não somente está sujeito a experimentar sentimentos horríveis e calamitosos, mas também de arrastar-me com ele. 

Sentimento que vivi de uma forma potencializada no dia de ontem, quando, em uma movimentada rua de Buenos Aires, o outro, o próximo a quem sempre aprendi que deveria amar, aproveitando-se do engarrafamento, rompeu o vidro esquerdo traseiro do carro, e arremessou-se para dentro, roubando todos os nossos pertences e ameaçando-nos. Por isso, me nego a compartir esse amor. Tão pouco remoo na consciência.

Depois de ter passado por essa experiência, e vivido a impotência, a raiva, e a desesperança que isso gera, à partir de hoje prefiro orientar-me pela razão, o que definitivamente não existe e não cabe nos pensamentos melosos, superficiais e pueris da máxima aplicada. 

Porque a vida real exige que eu seja mais ácida, e menos doce. Porque assim, penso, corro menos riscos e não me deixo levar pela imprudência de acreditar que todos são bons, e merecedores do meu amor e respeito.

E serei ainda mais vigilante. Porque a cada dia se faz pior, reconhecer o bem.