Quando uma amizade se acaba...





Há cerca de três anos me divorciava e, a convite de uma amiga de longa data passei uma temporada em sua casa. Ocorre que durante os quatro meses em que dividimos o mesmo teto, passaram-se coisas que me fizeram refletir a cerca da amizade. Ou melhor, da nossa, em particular.

A convivência me mostrou que amigos se acham no direito de dizer o que pensam, amparados na famosa frase que os extremamente sinceros usam para amenizar o peso de suas palavras: “estou falando isso porque gosto de você e sou sua amiga”. O que só demonstra o modo altivo como manipulam as ideias.

Ciente da minha fragilidade fazia da fraqueza a sua grandeza, e pior, buscando meu reconhecimento e gratidão. Mas sempre me mantive calada, pois o que tinha para dizer a ela também não vinha do melhor de mim. E eu sabia que o problema não era eu, mas sim minhas escolhas, já que ela estava tremendamente frustrada com as suas. Por isso era óbvio que ela não falava tudo aquilo porque me queria ou se preocupava, mas me usava para extravasar toda sua raiva, medo e frustração com respeito as escolhas equivocadas que havia tomado nos últimos anos de sua vida.

Suas conversas eram quase sempre desprovidas de afeto ou cuidado. Suas opiniões rápidas e sinceras vinham sem aviso e convite. Nunca se preocupava em como eu as receberia. E sempre confundindo insensibilidade com sinceridade, o que deixava óbvio que todo aquele discurso não se fundamentava na amizade, amor e respeito. 

E foi assim que entendi que em nossa amizade já não existia mais espaço para diálogos construtivos. Por isso, muitas vezes preferi me calar.

Porque calar não é uma escolha arrogante, mas sim respeitosa, já que era minha intenção preservar o que sobrou dos longos anos de amizade e dos dias que passamos juntas. E também porque acredito que uma conversa realmente construtiva somente acontece quando existe disponibilidade emocional de ambas as partes, o que é impossível acontecer quando uma está cheia de raiva, tensão, inveja e tristeza.

Por isso ela jamais entenderia e respeitaria minhas explicações, pontos de vista e opiniões. Levei tempo para entender isso, mas ao final aprendi que nem tudo deve ser falado.  Calar-se é o mais inteligente, prudente, saudável e essencial para se viver sem conflitos e não perder amigos.

E me fui com a seguinte sentença: “agora estás indo sorrindo, mas não te dou um mês e vais voltar chorando”.  Após o ocorrido não nos falamos mais. Eu até pensei em procurá-la para conversarmos e contar-lhe como estava indo bem. Mas achei melhor me calar. Não preciso do ruído da sua ira e indignação. Não preciso dividir minhas alegrias com quem só me põem para baixo. E não preciso mais me empenhar nem desprender tanta energia em explicar-lhe minhas escolhas e decisões. Porque difícil não é estar diante do outro e emitir críticas e julgamentos maldosos. Difícil é estar diante de si mesmo e fazer afirmações e promessas solenes, assumindo um novo modo de ser e de viver percebendo que as mudanças que se quer, começam em si mesmo.  Porque sem isso não há paz que flua de dentro para fora.

E gente assim não se leva bem com ninguém. Por mais que se tente.