Itinerário Solidão...




Foi sabendo um pouco mais que nada, e com um mapa aberto na cabeça, que lá cheguei pela primeira vez. E debaixo de um céu sem fim, a estrada fatiava a imensidão de terra plana e desocupada.

No inicio tudo era intenso, seco e árido. A planície, comprida demais. As montanhas, lá longe, altas demais.  O espaço sobrava. O silêncio brotava. Era algo tão diferente da experiência das grandes cidades, com seus excessos, ruídos e movimentos. Algo tão diferente daquela solidão acompanhada.

Não sei precisar o tempo, mas logo chegamos à cordilheira, e já dava para ver que a neve conspirava com as montanhas. E entre os imensos paredões de pedra e gelo, o céu desaparecia por alguns instantes. E quando reaparecia, inteiramente cinza, se grudava nos cumes, inteiramente brancos.

Eram dois mundos que coincidiam e se complementavam, naquela brumosa e gélida manhã de setembro. E o que poderia ser monotonia e cansaço, pouco a pouco se transformava em desafio. Já não havia cores. Já não se enxergava nada, nem mesmo o veio da estrada. Só um horizonte achatado, e a neve que caia, incessante e indiferente.

E o ritmo da travessia, se dava através da imagem, construída entre as brumas e a baixa luminosidade. Mas mesmo assim, seguimos obstinados. E nesse misto de aventura e peregrinação, tínhamos o cenário perfeito para celebrarmos o acaso, a harmonia, o silencio e a solidão.

Lembro-me de um segundo de luz. Fria. Uma pequena réstia de luminosidade, e logo, o mundo lá fora voltava a ser gris, novamente.

Essa é a memória nostálgica de uma viagem, através da Cordilheira Chilena, realizada em setembro de 2016. Um percursso sentimental, onde descobri que a geografia do amor, não é, e não precisa ser tão rude, quanto os caminhos sinuosos e escarpados das montanhas andinas.