Egito, do caos ao extase!



Ao longo dos anos, minha ideia sobre o Egito foi sendo construída através da beleza de sua história, na importância que o Egito Antigo tem na história da humanidade e sua civilização, pois o avanço do Egito em relação às demais civilizações da época era notável. Muito antes dos romanos, faraós já edificavam grandes construções e davam origem às primeiras versões do que viriam a ser as Pirâmides do Egito.

E acabo de voltar de uma viagem por esse país impactante e cheio de contrastes. Desde Luxor, onde vida e morte ocupam cada uma sua margem do Rio Nilo, sendo na ocidental o Vale dos Reis e Rainhas, territórios sonhados por arqueólogos e, na oriental o Templo de Luxor e Karnak  que com suas colunatas imensas que abrem em praças e se fecham em corredores, são de tirar o folego.  

De Luxor embarcamos em uma viagem de quatro dias pelo Rio Nilo, fonte de vida indispensável num país que tem três quartos do seu território em ambiente desértico. E foi uma experiência intensa em todos os sentidos. Observar a paisagem desenhando-se pelo caminho, somado ao silêncio e as cores às vezes entediantes e áridas do deserto só se superava quando dava lugar ao verde vivo das palmeiras e plantações. Era a vida que voltava a existir nas mulheres vestidas de negro da cabeça aos pés que timidamente nos acenavam desde a margem. Nas crianças que brincavam e nos gritavam em coro “alo”, como quem diz: Estou aqui, me veja. Nas casas simples, feitas de tijolos de barro e cobertas com folhas secas de palmeira. Na proa, acompanhando o pôr do sol descendo lentamente e dourando as águas do Nilo, num dos mais espetaculares que já testemunhei em minha vida.

Deixando templos e sarcófagos para trás, finalmente chegamos ao Cairo. Um lugar tão sonhado e esperado. Mas o Cairo não se explica. Se vive. É uma cidade caótica, pulsante e sem filtros. A cidade das pirâmides, única sobrevivente das sete maravilhas do mundo parece estar em permanente construção. A areia do deserto esta por todas as partes e parece reclamar o seu espaço. No ar, nas ruas, nos poros, narinas, casas, prédios é ela que confere a cor característica e uniforme que vemos por toda cidade - há dias em que céu e terra se fundem em uma única cor, geralmente quando ocorre uma tempestade de areia vinda do deserto.

O Cairo é conhecido como a cidade dos mil minaretes, embora existam muito mais. E é daí, dos minaretes que partem simultaneamente e se propagam pelo ar as vozes dos almuadens, num chamamento melódico à fé islâmica convocando os muçulmanos para uma, das cinco orações obrigatórias do dia. É uma espécie de ladainha que repete a frase “Allah hu Akbar” (Alá é grande) e atesta fé islâmica: “La ilaha ilia Allah, Muhammad rasul Allah” (Não há outro Deus que não Alá, e Maomé é o profeta de Alá).

É a maior cidade do continente africano. A mais populosa do mundo árabe e uma das 15 maiores metrópoles do mundo. Uma mescla do passado que se faz presente no Cairo Antigo, região histórica da capital tombada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Um complexo formado por mais de 600 monumentos que datam do século XII ao XX, como a fortaleza de Saladino, construída em 1183 pelo líder do levante contra os cruzados. A Mesquita de Mohamed Ali, feita em alabastro e no estilo turco-otomano, a Mesquita de Al-Azhar, a mais antiga do país, que data o início de sua construção no ano de 970 e hoje é sede da universidade mais antiga do mundo em atividade. Ali também está o mercado Kahn El Kalili. Divino e imperdível, possui ruelas estreitas e muitas vezes sem saída. Um verdadeiro labirinto onde é possível encontrar e comprar de tudo, pois os egípcios são exímios comerciantes. Basta sentar-se em um dos bares e cafés para degustar um karkady, o típico chá vermelho de hibisco ou chá de menta que em seguida homens, mulheres e crianças oferecem uma enorme variedade de produtos e serviços. Ali mesmo poderá ter seus sapatos lustrados, comprar um lenço, relógio, tâmaras frescas e pechinchar por qualquer bugiganga que lhe ocorra. E tudo isso durante um gole de chá.

Voltando para o centro da cidade, por onde quer que se ande o transito é confuso e perigoso. Não há policiais de transito nem tão poucos semáforos – em toda cidade do Cairo há somente cinco semáforos. Talvez isso explique porque os motoristas dirijam com a mão na buzina. Além disso há muitas carroças com tração animal que dividem espaços com carros velhos, motos, vans e camionetas carregadas de gente praticamente penduradas, quase caindo para fora. Na prática não existe regra ou código de trânsito. É uma verdadeira loucura, principalmente para o pedestre. Para cruzar uma rua é preciso costurar no meio dos automóveis até que se logre resultado. É uma travessia perigosa e mortal. Muitos simplesmente se precipitam, pois não há outro jeito. Só mesmo contando com a sorte. E o problema para o pedestre não para por aí, pois as calçadas muitas vezes são inexistentes ou estão cheios de lixo e obstáculos. É preciso estar atento ao caminhar pelo Cairo.

Mas se no trânsito não há policiamento, já na cidade é possível ver soldados do exército armados com fuzis e espalhados por vários pontos. Inclusive para cruzar o portão do nosso hotel, o carro que nos conduzia era inspecionado por cães e ao ingressarmos no lobby tínhamos que passar obrigatoriamente pelo detector de metais, como aqueles encontrados na área de segurança dos aeroportos. Tudo para nossa própria segurança, diziam eles. Na verdade a cidade está muito bem controlada contra o terrorismo.

No Cairo dos becos sujos e palácios encontra-se gente de todas as classes sociais, inclusive famílias que vivem em um cemitério que se estende por mais de dez quilómetros ao longo de uma autoestrada. Vivem ali mais de um milhão de habitantes, segundo estatísticas. Al'Arafa ou, o cemitério, foi criado no século VII quando os árabes conquistaram o Egito. As construções fúnebres pouco lembram um cemitério ocidental, mas mantem a tradição egípcia de sepultar seus mortos em moradias, o que  permitia as famílias passarem junto aos seus o luto de 40 dias. E como a ocupação necrópole continua sendo oficialmente ilegal, os que alí vivem não dispõe de serviços públicos como esgoto, luz, água potável e coleta de lixo. Mas ainda assim esse superpovoamento se explica, pois é grande a dificuldade socioeconómica em conseguir um lar no Cairo.

Enfim, esse é um pouquinho do Cairo e seus conflitos. Uma cidade imensa e cheia de problemas. Um lugar fascinante e que desperta sentimentos contraditórios. Uma cidade que não dorme. Que não descansa. Que está sempre em contínuo movimento. De mulheres que investem para tornar vistosas as únicas partes do seu corpo expostas ao mundo: olhos e mãos.

Um Cairo que oscila entre uma vida tradicional que na sua essência assenta em preceitos religiosos e os elementos de modernidade que entretanto vão chegando. O que inevitavelmente fará com que os cairotas mais instruídos e os menos favorecidos confrontem seus desejos mais secretos versus a obediência mais ou menos cega aos preceitos tradicionais da religião islâmica. E, óbvio, as profundas desigualdades sociais e econômicas completarão o cenário.

De Luxor ao Cairo essa foi uma experiência marcante. Vou carregá-la comigo para sempre nas imagens e aromas que se misturam livremente em minhas memórias. Esse é o Egito que sempre imaginei desde os livros de historia, mas agora com vida. E uma vida muito mais interessante que a imaginada. Uma das mais antigas e enigmáticas regiões do globo terrestre. Terra de divergências e conflitos recorrentes de paixões e ódios, mas também de um passado histórico incomparável. Um país de gente hospitaleira. Um lugar onde ninguém me insultou, maltratou ou desrespeitou.


Um país disseminado muitas vezes como viveiro de malfeitores é também terra de gente da paz, boa, culta e generosa. Esse foi o Egito que eu conheci e amei.