A mulher na modernidade – sobre a maternidade...


                                           

Durante o século 19, mulheres não podiam estudar porque médicos e cientistas acreditavam que ao estimularem o uso do cérebro, seus ovários poderiam atrofiar, impedindo-as de gestar. No século 20, em pleno tempos de guerra, a maternidade era amplamente incentivada como uma forma de estimulo à família, e no intuito de aumentar o número de soldados. E em tempos de paz, incrementar o mercado consumidor.

A única interrupção aos elogios e incentivo à maternidade, ocorreu em meados do século 20, quando surgiu o movimento feminista. E junto com o movimento, vieram os questionamentos a maternidade obrigatória, a proibição da interrupção da gravidez por vontade da gestante, a necessidade de casamento para constituir família, as dificuldades para conciliar trabalho e maternidade, a falta de políticas públicas para mães solteiras, os limites e possibilidades da paternidade e, inclusive, questionavam e analisavam se o sentimento materno seria algo inato ou construído socialmente.

Ou seja, desde aquele tempo já se questionava a cerca da afirmação de que a realização da mulher, só ocorre na maternidade, abrindo espaço para a diversidade, trazendo conforto e apoio para muitas mães que não se enquadram nessa lógica tradicional. Mulheres que não se alinham com esse ideal de mãe perfeita, construído pela sociedade em geral, e por cada família em particular que cobra dessas mulheres um amor incondicional por seus filhos, sendo que muitas vezes, elas sequer vivenciam a maternidade dessa maneira.

Ocorre que o conceito de amor materno foi assimilado de forma contundente, e por muito tempo não questionável, como se fosse uma situação “sine qua non” tipo: mulher é = gestar, maternar.  Ou seja, uma característica feminina, um dom, um sentimento instintivo e estritamente biológico que todas as mulheres devem vivenciar. 

E esse sentimento começa a ser transferido na infância, quando treinamos com nossas bonecas o papel de boa mãe, a perfeita, aquela que é capaz de enormes sacrifícios, a sempre amável, tranquila, compreensiva, equilibrada, acolhedora e feminina em tempo integral. A imagem romanceada da maternidade e da mulher construída ao longo dos séculos, e incapaz de admitir qualquer vestígio de sentimentos ambivalentes nas mães.

Mas a maternidade em todas as suas formas, aquela que acontece no dia a dia, não pode ser confundida com a maternidade que a gente idealiza, porque está distante disso. Muito menos com aquela que nos vendem, porque essa é impossível. A maternidade de verdade não é ensinada, nem mesmo discutida, ao menos até que os problemas aconteçam. E aí, descobrimos sozinhas. E dói. E não me refiro somente às dores do parto e pós-parto, do aleitamento - e vale dizer que amamentação não só dói, mas também pode não acontecer, o que gera outra fonte de stress e preocupação -, a privação de sono, as metamorfoses na vida conjugal, pessoal, profissional, a ansiedade, o medo e por aí vai.

Enfim, são vários os processos que ocorrem desde o momento em que é confirmada a gravidez. Inclusive a construção do amor, que para algumas mulheres só é conquistado e construído na convivência e intimidade da relação mãe e filho. Que é, o que eu realmente acredito, pois amor não é fruto de nada etéreo, mas sim de muito empenho, cuidado e investimento daqueles que integram uma relação amorosa, seja ela qual for. 

Por isso escolhi esse tema para o Dia Internacional da Mulher. Porque penso que, apesar das vozes contrárias, a maternidade não é uma missão sagrada, nem tão pouco uma obrigação de quem nasce mulher. Maternidade não é um dever, mas sim uma escolha. Um direito que pode ser exercido, se assim a mulher o desejar.  

E é preciso parar de julgar e etiquetar as mulheres que são, e pensam de forma diferente, porque isso é, no mínimo cruel. E prova disso foi o que ocorreu com Juliana Reis, que se negou a participar de um desafio lançado no Facebook, cuja proposta era compartilhar fotos “felizes da maternidade”. Juliana no entanto optou por mostrar sua experiência real, que descreveu como cansativa e dolorosa. Em um trecho disse: “Quero deixar bem claro que amo meu filho, mas odeio ser mãe”. E seguiu: "Vou lançar outro desafio: O desafio da maternidade real. De tudo o que as mães passam, e as pessoas não dão valor, como se toda mulher já tivesse sido programada para viver isso. Postem fotos de desconforto com a maternidade e relatem seus maiores medos, ou suas piores experiências para que mais mulheres saibam da realidade que passamos. Dizem que no final, sempre acaba tudo bem, mas o meio do processo é lento e doloroso".

Rapidamente o post contabilizou quase 80 mil curtidas em apenas um dia. E somem-se a isso, milhares de comentários de apoio e de protestos com relação à postura de mãe - alguns deles afirmando que a jovem estaria sofrendo de depressão pós-parto. Horas depois o perfil de Juliana foi denunciado e bloqueado. 

Definitivamente é preciso respeitar as diferenças e compreender as inquietações de cada um. Entender que a plenitude, ou não da maternidade, não deve ser mensurada ou potencializada por ninguém, pois esse é um momento único e cabe somente a pessoa que o vive julgar. O que é certo, já que cada um constrói sua subjetividade de acordo com as experiências vividas.


Ainda há muito a ser discutido para que as pessoas se libertem das visões preconcebidas, e entendam de uma vez por todas que a maternidade não é, e nem nunca foi o único caminho aceitável na vida de uma mulher. A maternidade na verdade, é bem mais difícil de viver, do que em geral se crê.