Tetazo - Mulheres argetinas contra as velhas moralizações e novas politizações.

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Em janeiro de 2011, diversos casos de violência sexual ocorreram em uma universidade de Toronto, Canadá. Dias depois o policial Michael Sanguinetti, convidado a proferir uma palestra sobre segurança, orientou as alunas “a não se vestirem como vadias para não serem vítimas de assédio sexual”. Ou seja, foi o mesmo que responsabilizar a vítima pela violência sofrida.

Pouco tempo depois o IPEA, Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, divulgou uma pesquisa, na qual, entre diversos resultados assustadores 65% dos brasileiros concordavam com a afirmação de que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Obviamente o resultado surpreendeu e gerou revolta, o que resultou na campanha “Eu não mereço ser estuprada”, que ganhou força nas redes sociais.

E essa semana na cidade costeira de Necochea, cerca de 500 quilômetros da cidade de Buenos Aires onde vivo, um incidente gerou muito alvoroço na mídia local e manifestações pelo país. O detonador foi vinte policiais, seis patrulhas e três mulheres em topless, o que imediatamente originou-se em uma guerra entre feministas e conservadores. E na televisão era o mesmo assunto: A questão legal, a opressão de gênero, o machismo e a violência contra a mulher. E não parou por aí. No dia seguinte cerca de duzentas mulheres reuniram-se no obelisco, famoso ponto turístico e lugar de protestos, sob o lema: "la única teta que molesta es la que no se puede comprar". E seguiu nas cidades de Rosário e Mar del Plata, sempre marcado pela irreverência de grande parte das participantes, nuas da cintura para cima, obviamente.

E as discussões seguiam acaloradas. Enquanto os simpatizantes do topless eram a favor do peito de fora, os conservadores buscavam respaldo na lei para justificar a ação policial, já que aqui é proibido o topless - será porque para as leis machistas, como quase tudo na nossa sociedade, o corpo feminino é sexual? É certo que para a lei e para uma maioria esmagadora, inclusive mulheres, o peito feminino ainda é uma ofensa. Mas afinal, por que um peito de fora ainda agride tanto, quando temos mulheres praticamente nuas nas publicidades de tv, novelas, filmes, videoclipes, teatro, fotografias e uma infinidade de outras situações que saturam e se multiplicam todos os dias? Será que ainda podemos nos escandalizar quando existem tantas outras coisas que agridem, violentam e envergonham muito mais?

A verdade é que mostrar-se, com ou sem roupa está na moda. Inclusive virou uma forma de ativismo. Mulheres de toda classe e idade exibem-se nuas em nome de uma multiplicidade de causas nobres. E não se trata apenas de uma excentricidade entre celebridades ou não. O fenômeno é mais abrangente, e por isso merece ser observado com atenção, pois nos últimos anos vem crescendo esse tipo de agrupação política, cuja principal arma é precisamente tirar a roupa em público, sobretudo nas ruas das grandes cidades, já que a nudez ainda continua suscitando alvoroço. O que resulta eficaz quando o objetivo é chamar a atenção. Mas há que tomar cuidado, pois ao se replicarem com tanto barulho e rapidez, é provável que acabem perdendo também sua eficácia midiática em virtude de sua banalização. 

Mas por enquanto a tática ainda parece funcionar, pois a nudez é tão chamativa que atrai todas as atenções, inclusive as que deveriam se concentrar nos nobres motivos do protesto em questão - se bem que as vezes me pergunto se as pessoas enxergam algo mais além de seios, já que os nobres motivos parecem ficar eclipsados pelas instigantes imagens.

Enfim, o certo é que essa luta vai continuar e os seios de fora também. Porque é sobre isso a luta. É sobre mulheres com direito e liberdade de mandar e desmandar em seus próprios corpos e a expô-los sem medo e sem julgamentos. Porque o corpo feminino não é mais sexual que o masculino. Um decote não é provocação. Uma saia curta não é convite.  E um peito de fora não é ofensa.