Aborto! Precisamos falar...




Há dias presencio uma verdadeira guerra de opiniões, a cerca do aborto. São duas frentes de batalhas. A primeira defende a prática, alegando que a mulher é um ser livre, e tem o direito de escolha, principalmente quando envolve a maternidade. Ou seja, o corpo é dela e ponto. Sendo assim, religião e sociedade não devem opinar. A segunda, por questões éticas, religiosas ou científicas, é contra, pois entende que a decisão não cabe exclusivamente à mulher, já que abriga em seu corpo a vida de outro ser humano.

A verdade é que concordando ou não, legalizando ou não, o aborto sempre existiu, e seguirá existindo. No Brasil milhares de mulheres abortam todos os anos, e entre elas um número gigantesco sofre complicações decorrentes da prática malfeita, geralmente realizada em locais sem as mínimas condições de higiene ou segurança, o que leva muitas dessas mulheres a óbitos ou mutilações. Ou seja, proibí-lo não detém sua prática, só o torna perigoso e mortal.

E vale lembrar que não há relação direta entre sua legalidade, e sua incidência. Portanto ao legalizar esse direito as mulheres, isso não implicaria necessariamente no aumento da incidência de abortos induzidos. Ao menos não por esse motivo.

Mas afinal, o aborto deve ser legal e seguro, ou ilegal e arriscado? Sem dúvida é uma pergunta difícil de responder. Por isso é preciso falar sem tabu, sem embaraço, sem medo e sem culpa, porque jovens e adultos fazem sexo. Sempre fizeram e sempre farão. 

O problema reside em quem tem menos informação e menor acesso a métodos contraceptivos, pois provavelmente estará mais suscetível a uma gravidez indesejada, principalmente quando essa gravidez ocorre fora do casamento. Mas fora ou dentro, jovens ou não, mulheres tem chegado ao extremo para interromper uma gravidez. E os motivos são muitos, e cada uma sabe de seus porquês. Por isso se arriscam.

E arriscam porque nossa sociedade, como já nos mostrou Foucault, é dominada por uma vontade de verdade, seja ela qual for. Aí, o que vale é a atuação de procedimentos e mecanismos variados que possam controlar, selecionar, excluir e organizar os discursos como verdadeiros e falsos, e assim manobrar e ditar o que é certo ou errado, fazendo com que tudo aquilo que é dito como "verdade", passe a ganhar a condição de um discurso verdadeiro. 

E nesse jogo nojento e perverso de poder entre o verdadeiro e falso, bem ou mal, historicamente as mulheres sempre foram vistas somente como um corpo, muitas vezes mentiroso e mal intencionado. Basta lembrarmos de Pandora, que na mitologia era tida como a representação do mal. Ou Eva, que para os cristãos, era a porta pelo qual entrava todo o pecado. Ambas representações femininas cujos corpos facilmente poderiam conduzir ao prazer, ao erro, a injustiça e a mentira. 

E nas artes poderíamos citar exemplos como Madame Bovary e Anna Karenina, mulheres que protagonizaram romances do século XIX, obcecados pelo tema da infidelidade em que mulheres sexualmente ativas enlouqueciam ou morriam. Ou seja, coincidência ou não, a verdade é que o corpo feminino culturalmente foi construído como algo do qual se deve ter cuidado, e cautela, pois ele pode enganar e seduzir. E infelizmente este imaginário torto e nefasto ainda habita na cabeça de muita gente incapaz de reconhecer que as mulheres são pessoas plenas, e integras em suas faculdades. 

Portanto é imprescindível que toda mulher tenha direito ao controle sobre seu corpo, e respeito por suas decisões e projetos de vida. Garantia de segurança, caso opte pelo término da gravidez. Apoio por parte de seus familiares, amigos e médico, independentemente da opinião pessoal e reconhecimento por parte do estado legitimando essa escolha. E quando tudo isso seja possível, que os moralistas e os religiosos de plantão se abstenham de opinar, criticar e julgar.

Porque não somos Eva ou Pandora. Somos mulheres comuns e reais. Nem boas, nem más. Nem santas ou pecadoras. Apenas mulheres que erram e acertam. Mulheres que quando optam pelo aborto é porque já descartaram todas as possibilidades existentes, pois isso não é algo que se faça sem pensar.
É uma decisão dura e triste, pois decida o que decidir, a verdade é que essa mulher sempre irá perder algo. E quando tudo termine, ela já não será mais a mesma, pois terá que conviver com o peso e as consequências de sua decisão para sempre.

E verdade seja dita: Maternidade não é um sonho mágico, que se compra na banca da esquina. É um mar de responsabilidade e disponibilidade emocional, em que se navega por águas turbulentas durante anos. É um trabalho árduo, onde se expõem as próprias vísceras, para que a do outro possa crescer, se nutrir, fortalecer e se manifestar. 

E para isso acontecer é necessário muito mais que vaidade, autoafirmação, obrigação ou imposição. Não é à toa que algumas pessoas pensem o que pensem sobre aborto x maternidade, afinal, em uma sociedade que se ergue a partir de perspectivas que nos obrigam a conviver com a culpa, essa construção de séculos, e que só tem uma função social muito específica, que é controlar, causem na sociedade tanto mal estar, desconforto e conflito em torno do assunto.

Talvez isso explique porque, nós mulheres tenhamos sempre a sensação de estarmos erradas, mesmo quando estamos “dentro dos padrões”.