Desabafo...




Houve um tempo em que a medicina tratava os doentes nos hospitais, enquanto considerava haver possibilidade de cura. Porém, não havendo mais essa possibilidade aconselhavam as famílias a levarem seu familiar enfermo para morrer em casa, o que, segundo eles era a forma mais digna para morrer em paz. E isso geralmente acontece quando se esgotam todos os recursos terapêuticos, então a alternativa é liberar o doente para passar seus últimos dias de vida em casa, ao lado dos familiares e deixando o leito livre para ser ocupado por outro paciente com chance de sobrevida.

E essa nova concepção de atendimento fez surgir o chamado “cuidado paliativo”, que é mitigar o sofrimento introduzindo medidas farmacológicas, como o uso de analgésicos e de medicações que atuem sobre a dor e a falta de ar, por exemplo, fazendo com que a pessoa sinta-se no mínimo confortável, apesar de não interferirem na evolução da doença de base. Mas pela experiência que estamos vivendo, e o relato de outras família que passam pela mesma situação, a coisa não funciona exatamente assim.  A começar pela falta de informação adequada com relação a complexidade que envolve todo esse processo. 

Os recursos para tratar um doente terminal deveriam ser melhor explicados. Os médicos não poderiam deixar que as famílias saíssem dos hospitais na ignorância, porque o compromisso de um médico não acaba diante da impossibilidade da cura. Ele tem a obrigação de aliviar os sintomas e proporcionar um final de vida mais digno ao seu paciente, pois só assim evitaria que no ápice da dor, ele suplique para morrer. E quando isso acontece, obviamente é sinal de que o paciente não está recebendo adequadamente os cuidados paliativos, principalmente os pacientes de oncologia, como é o caso de minha mãe, onde infelizmente todos os recursos terapêuticos já foram esgotados. Para ela de nada adianta prescrever analgésicos comuns, quando é sabido que o mais eficaz é a morfina. 

E o que fazer quando as dores não cedem e são insuportáveis? Dar doses mais altas de analgésicos ou de outras drogas para aliviar o sofrimento e deixá-la ainda mais debilitada? Sem receber o remédio adequado, no caso a morfina, o sofrimento dela é insuportável. E aí me pergunto? Por que mandar para casa se sabem o que vai ocorrer? Por que não liberar a morfina para casos assim, pois essa é exatamente a posição defendida pela Organização Mundial de Saúde, ou seja, utilizar medicações mais pesadas porque são absolutamente necessárias para evitar o sofrimento sem a intenção de encurtar a vida do doente?

Pois é, mais uma coisa que não se explica. Embora a morfina seja o melhor dos analgésicos, no Brasil prescrevê-la é uma dificuldade, começando pela exigência de um receituário especial. Além disso os derivados de morfina disponíveis no mercado são vendidos a preço muito alto, o que inviabiliza sua utilização por pacientes sem recursos financeiros. Outro absurdo!

Para minha mãe, que decidiu morrer em casa, ao lado de sua família, aliviar sua dor ficou impossível. E não há um dia em que não me lembre de seu rosto e sua agonia. Muitas vezes minha irmã e eu nos perguntávamos se estávamos agindo certo em respeitar sua vontade, pois a impotencia que sentíamos diante o quadro e a evolução da dor nos deixava arrazadas. Mas somente no hospital ela poderia ser medicada com morfina.Porém, decidimos respeitar sua vontade, mesmo não entendo onde se encaixa o propósito do “morrer com dignidade e em paz” quando não se pode ter acesso a um medicamento tão importante e que justifique esse fim.

E essa triste experiência só me comprova o que já sabia: falha dos profissionais da saúde, quando a obrigação dos médicos e hospitais é proporcionar aos pacientes de quadros dolorosos os cuidados paliativos pertinentes. E o descaso com a dor alheia, uma vez que o compromisso médico só termina com a morte do paciente, esteja ele em casa ou no hospital.