Que seja infinito o que nos faz bem...




Cedo ou tarde chega o momento em que não dá mais, então tudo aquilo que era silêncio encontra uma saída e se torna voz. 
E é nesse momento que a ruptura deixa de ser uma ideia, tornando-se uma necessidade. E foi o que aconteceu.

Comecei com um basta a tudo que me incomodava:o pacote de críticas e desculpas que eu carregava, o tempo em fragmentos que me desesperava, e todas as minhas decisões tantas vezes adiadas.

E então eu finalmente fechei um ciclo. E foi um aprendizado enorme. E não somente acerca das atividades do dia a dia, mas principalmente no que se refere ao espírito humano, pois lidar com pessoas é algo interessantíssimo, já que elas podem ser tão fantásticas quanto cruéis.

Quando penso no que deu errado, percebo que não sei exatamente quando e nem porque passei a me sentir desconfortável com a falta de vida, mesmo quando tudo aparentemente parecia ir bem, ou seja, as contas pagas, a saúde controlada, os filhos seguindo o próprio caminho, o sonho da casa própria realizado, planos de viagens, enfim, tudo certo, controlado e organizado.

Te parece tentadora esta possibilidade de ter uma vida perfeitamente previsível e controlada? Mas não será exatamente essa previsibilidade excessiva que adormece os sentidos e nos coloca no piloto automático? Não será essa repetição incessante dos dias que nos causa tanta estranheza e solidão? Será possível sentir-se viva, verdadeiramente viva no seu sentido pleno e absoluto sem momentos de surpresa? 

Me fiz essas perguntas inúmeras vezes e, se pudesse ter a oportunidade de reescrever minha vida escolhendo o início, meio e fim, definindo tudo de forma inspirada e planeada ao colocar o ponto final tudo estaria fechado novamente, sem possibilidade de alterações posteriores e sem surpresas.

Felizmente eu não tenho e nunca tive dificuldade de aceitar e lidar com a ausência de controle, pois sei que a imprevisibilidade é inerente à vida. Venho de uma família de mulheres fortes, ativas e atuantes. Mulheres de múltiplas histórias para contar. Mulheres com vontade e curiosidade pelo novo. Mulheres capazes de reinventar-se sempre, e não permitindo que os contratempos justifiquem que a vida lhes passe a canto.

Por isso, onde quer que eu chegue, chego com a certeza de que é preciso me reinventar, mesmo que para isso eu precise desmoronar primeiro e me estilhaçar em pedaços, mas sabendo que terei autonomia para juntar cada pedacinho e ser novamente eu, recomeçando do meu jeito, como sou e sabendo exatamente a diferença entre o que é dor e desconforto.

Desafiador? Sim, mas preciso enfrentar meu próprio caminho, mesmo que isso represente tropeçar em minhas próprias pedras. Preciso reaprender a gerir minha própria vida e sentir-me suficientemente firme em qualquer solo que pise. Preciso voltar a sentir na pele a brisa da imprevisibilidade, a magia da surpresa e a energia da vitória, pois só a reconhece como tal quem muitas vezes já perdeu.


Agarrar a vida com as próprias mãos pode implicar em saltar rumo ao desconhecido. Então que assim seja, porque quero sentir a mudança dos ventos em tempo real, mesmo sabendo que nesse momento o corpo poderá doer, a visão poderá não me devolver o que espero ver. Mas o prazer de me sentir inteira no mundo e agarrar com firmeza no leme da minha própria vida, será recompensador.