E você, dorme enquanto os ventos sopram?




Quando eu era menina, ouvia lindas e interessantes histórias contadas por meu querido avô, Benjamin. Não eram aquelas historinhas infantis, que se conta para criança dormir. Geralmente eram histórias carregadas de sabedoria e algum ensinamento. E eu adorava. Mesmo quando longas, ouvi-las era como música para meus ouvidos, até porque adorava seu sotaque carregado no espanhol, o que deixava toda e qualquer narrativa ainda mais encantadora. E uma dessas histórias me serve como referência até hoje, e era mais ou menos assim: 

Havia um fazendeiro, senhor bem sucedido e dono de terras a perder de vista, em uma pequenina cidade no norte da Espanha. Porém as coisas não andavam muito bem. Com o inverno batendo à porta, já era tempo de contratar mão de obra. Mas o problema é que não haviam candidatos, o que talvez ocorresse devido ao trabalho árduo que antecedia a chegada do inverno, e também o difícil acesso a fazenda, o que tornava-se outro desafio, pois nos dias de chuva mais severas, era praticamente impossível que alguém chegasse ou partisse do lugar. 

Já conformado de que não encontraria ninguém, ele é surpreendido com a presença de um candidato. Era um homem baixinho e franzino, com um semblante bastante cansado e um físico um tanto frágil, levando em conta o trabalho a desempenhar. O fazendeiro desanimado com a figura do candidato vai logo perguntando: "Você tem experiencia em fazendas? Tem certeza que chegará vivo ao final do inverno?"

O homem levantou a cabeça e calmamente responde: "Bem, eu posso dormir enquanto os ventos sopram."  Embora confuso com tal resposta, mas necessitado de ajuda, o fazendeiro resolve contratá-lo sem mais questionar. 

E para sua surpresa, nos dias que seguem, o que vê é um homem trabalhando com louvor. O pequenino mantinha-se ocupado do alvorecer ao anoitecer. Trabalhava mais que qualquer outro, o que deixava o fazendeiro satisfeito e sorrindo de orelha a orelha.

Até o dia em que o temido inverno chegou. E numa noite fria o vento uivou assustadoramente. Preocupado o fazendeiro pulou da cama, agarrou o lampião e correu até o alojamento dos empregados. Lá chegando encontrou os homens já vestidos e prontos para sair em socorro dos animais, e tudo mais que se fizesse necessário. Mas o pequenino não estava entre eles. Foi então que ele olhou em direção a sua cama, e o vê ainda deitado. Irado e aos gritos, ele o chama:"Levanta homem! Uma tempestade se aproxima! 

Tranquilamente ele levanta e diz: "Eu não vou senhor, não é preciso. No dia em que me contratou, eu lhe disse que poderia dormir enquanto os ventos soprassem. O senhor não lembra?" 

Enfurecido com a resposta, mas sabendo que aquele não era o momento para discutir, o fazendeiro apressa-se para sair e preparar tudo, pois a tempestade não tardaria em chegar. Do homem cuidaria depois.

Mas para seu assombro, ao chegar próximo do celeiro descobre que todo o feno já está coberto com imensas lonas, e todas estãpresas firmemente ao chão, exatamente como deve ser. Vacas e cavalos estão devidamente protegidos no celeiro. Galinhas nos viveiros, e porcos nos chiqueiros. Todas as portas travadas, janelas bem fechadas e todos os animais abrigados, seguros e protegidos. Foi então que o fazendeiro entendeu o que o pequenino homem quis dizer.

Gosto muito dessa história. Talvez porque ela me inspire e desperte a consciência, mostrando o quanto é importante que eu me mantenha sempre preparada para as intempéries da vida, já que ela, com seus constantes ciclos, exige essa vigília. E assegurar o nosso bem estar e daqueles que amamos, gera uma tranquilidade ímpar, o que certamente é capaz de nos proporcionar um sono muito mais tranquilo.

E você, o que tem feito para dormir tranquilo nos dias tensos de tempestade, quando o vento insiste em soprar?