sábado, 17 de maio de 2014

E você, dorme enquanto os ventos sopram?




Quando eu era menina, ouvi lindas e interessantes histórias contadas por meu querido avô Benjamin. Mas não eram historinhas infantis que se conta para criança dormir. Geralmente eram histórias passadas de pai para filho, sempre cheias de sabedoria e algum ensinamento. E eu adorava. Mesmo quando longas, ouvi-las era como música para meus ouvidos, até porque adorava seu sotaque carregado no espanhol, o que deixava toda e qualquer narrativa ainda mais encantadora. E uma dessas histórias me serve como referência até hoje.

E era mais ou menos assim: 
Havia um fazendeiro, senhor bem sucedido e dono de terras a perder de vista em uma pequenina cidade no norte da Espanha. Porém as coisas não andavam muito bem. Com o inverno batendo à porta, já era tempo de contratar mão de obra. Mas o problema é que não haviam candidatos, o que talvez ocorresse devido ao trabalho árduo que antecedia ao inverno e o difícil acesso a fazenda, o que tornava-se outro desafio, pois nos dias de chuva mais severas era quase impossível que alguém chegasse ou partisse. 

Então, quando já conforma-se e desistia de encontrar um novo ajudante, aparece um interessado. Era um homem baixinho e franzino, com um semblante bastante cansado e frágil. E o fazendeiro, já meio desanimado com a figura do candidato vai logo perguntando: "Você é um bom lavrador? Tem certeza que chegará vivo ao final do inverno?"
E o homem calmamente responde: "Bem, eu posso dormir enquanto os ventos sopram"  Embora confuso com tal resposta, mas necessitado de ajuda o fazendeiro resolve contratá-lo sem mais questionar. 
E para sua surpresa o que vê é um homem trabalhando com louvor. O pequenino mantinha-se ocupado do alvorecer ao anoitecer. Trabalhava mais que qualquer outro, o que deixava o fazendeiro satisfeito, sorrindo de orelha a orelha.

Até o dia em que o temido inverno chegou! E numa noite fria o vento uivou assustadoramente. Preocupado o fazendeiro pulou da cama, agarrou o lampião e correu até o alojamento dos empregados. Lá chegando encontrou os homens já vestidos, prontos para sair em socorro dos animais e tudo o que se fizesse necessário naquele momento. Mas o pequenino homem não estava entre eles. Foi então que que olhou em direção a sua cama e o vê ainda deitado. Irado põem-se a chamá-lo. Mas nada do homem acordar. Então furioso ele grita: "Levanta homem, uma tempestade se aproxima!"

O homem calmamente vira-se na cama, encara-o e diz firmemente: "Eu não vou senhor, não é preciso! No dia em que me contratou eu lhe disse que poderia dormir enquanto os ventos soprassem. O senhor não lembra?" Enfurecido com a resposta, mas sabendo que aquele não era o momento para discutir, apressa-se para sair e preparar tudo o que é preciso, pois a tempestade não tardaria em chegar. Do homem cuidaria depois.

Mas para seu assombro, ao chegar próximo do celeiro descobre que todo o feno já está coberto com imensas lonas e todas presas firmemente ao chão, como deve ser. Vacas e cavalos estão devidamente protegidos no celeiro, galinhas nos viveiros e porcos nos chiqueiros. Todas as portas travadas, janelas bem fechadas e todos os animais abrigados, seguros e protegidos. Foi então que o fazendeiro entendeu o que o pequenino homem quis dizer.

Gosto muito dessa história. Talvez porque ela me inspire, desperte a consciência e mostre o quanto é importante que eu me mantenha sempre preparada para as intempéries da vida, já que ela, com seus constantes ciclos exige essa vigília. E assegurar o nosso bem estar e daqueles que amamos gera uma tranquilidade ímpar, capaz de nos proporcionar um sono muito mais tranquilo.

E você, o que tem feito para dormir tranquilo nos dias tensos de tempestade, quando o vento insiste em soprar?



Uma excelente semana a todos!