O gringo que viu o que os gringos não devem ver! Será?

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Após ler a postagem “Um gringo que viu o que os gringos não devem ver” no blog Meus Devaneios Escritos de Silvana Haddad, penso no quanto as histórias se mesclam, entrelaçam e falam por si só, fazendo com que eu me sinta cada dia mais incomodada e enojada, pois do ponto de vista ético e moral descemos cada vez mais baixo.

Enfrentar as dificuldades da vida não é fácil, porém difícil é constatar que grande parte da minha insatisfação é gerada por um governo que não consegue sequer administrar de forma digna e satisfatória os recursos públicos em favor de seu povo. Um governo moralmente falido, com discursos desgastados, mentirosos e corrompidos.

É injusto e indigno ter que sair as ruas todos os dias para trabalhar ou estudar e confrontar-se com o medo de não sobreviver, virando mais um número da interminável estatística de violência urbana que certamente faria inveja até ao mais temido membro da Al Qaeda, por
que a violência tomou proporções alarmantes. 

No Brasil, o país do samba e futebol morre-se por qualquer trocado, discussões geradas no trânsito, por vestir a camisa do time do coração ou farda policial, por opção sexual, raça, cor, credo, enfim, morre-se por qualquer coisa, até mesmo se o sujeito não simpatizar com sua cara. Simples assim! E vale lembrar que o Brasil figura na lista da ONG francesa “Repórteres Sem Fronteira” como o quinto país mais perigoso no mundo para jornalistas exercerem seu trabalho com segurança. Conforme dados da própria ONG o Brasil já teria enterrado mais profissionais da área, do que a Síria. E isso só no início desse ano. Ou seja, nem trabalhando estamos a salvos da ausência do Estado e da inoperância do sistema de segurança.

Outra estatística alarmante gira em torno do atendimento em hospitais públicos e até privados. A saúde pública está um caos, pior que em tempos de guerra quando vítimas eram atendidas precariamente, sem recurso algum. Hoje dispomos de tanto e tão pouco ao mesmo tempo. Pacientes excedem o número de leitos, pessoas são atendidas em macas, cadeiras ou até no chão. Recém nascidos são amontoados um ao lado do outro, doentes e sadios compartilhando o mesmo berço ou incubadora. E a desculpa é sempre a mesma: Falta dinheiro para investimentos.

Educação nunca foi e nunca será uma prioridade. Quem tem filhos na escola já sabe que os investimentos são insuficientes, mal distribuídos e mal geridos. O Brasil tem uma deficiência imensa de professores qualificados. E isso se dá pela má formação dos profissionais e a péssima remuneração dos bons, ou mais ou menos - motivo talvez para afastar os mais qualificados, restando somente alguns poucos dedicados. Isso sem falar na falta de condições básicas, o que afeta estrutura física, merenda escolar e até mesmo giz e carteiras.

Trabalhar virou desafio. Ao final de cada dia, depois de trabalhar dignamente o cidadão sente-se cada vez mais explorado pela máfia política e social que praticamente nos obriga a recorrer a uma renda extra. Com o que se ganha quase não dá para viver. Vamos à quitanda da esquina e o cenário revela o que todos já sabemos, mas o governo insiste em nos confundir. A inflação está alta, o país cresce pouco e os altos reajustes de serviços públicos e privatizados como transporte coletivo, telecomunicações, energia, pedágios e tantos outros serviços básicos e necessários estão comendo nosso dinheiro. Enfim, a economia está baixa, as famílias estão endividadas e os gastos do governo são crescentes.


Enfim, esses são apenas alguns pontos de um problema muito maior e que todos os dias milhares de brasileiros sentem na pele: As consequências negativas da falta de saúde, educação, trabalho e segurança. Infelizmente ao povo brasileiro não foi, não é, e nem será dada a acolhida “padrão FIFA”. Talvez por isso eu concorde plenamente com quem diz que o Brasil não tem condições de sediar tal evento, embora diga-se que a Copa trará investimentos. Tomara! Ao menos algo positivo diante de tanta roubalheira. Mas imposto é pago o tempo todo, ou seja, dinheiro nos cofres públicos entra o tempo todo, logo, investimentos deveriam ser feitos o tempo todo – para brasileiros - e não em nome de um evento que dura somente um mês, feito para turista e gringo ver. E as melhorias que estão fazendo por causa da Copa, e muito mal, diga-se, o governo já deveria ter feito a décadas.

Não será a Copa que irá salvar esse país. Essa é apenas mais uma peça mentirosa de propaganda como tantas outras para gringo ver. Não precisamos de Copa. Precisamos de mudanças, e muitas. E que comece pelo poder político, que é a reforma mais urgente que a nação precisa. Assim quem sabe não precisaremos mais varrer para de baixo do tapete toda a sujeira que gringos não podem ver, ou pensam que viram.

Uma pena tudo isso acontecer, uma vez que ao realizar um vento tão grandioso como esse perde-se mais uma vez a oportunidade de crescer e avançar de forma concreta e significativa em prol do cidadão brasileiro. Mas enfim, tudo isso que eu disse aqui não é nenhuma novidade, ao contrário, já foi dito e repetido a exaustão.

Falta vontade politica para melhorar? Sim, mas também falta mais vontade por parte de todos nós, afinal, temos a triste tendência de esquecer e nos acomodar. 
Mas nem por isso precisamos que criem histórias, inventem fatos e tentem denegrir ainda mais o que já é bem complicado, assim como fez o tal gringo, que disse ter visto o que certamente não viu!