Natal, um tempo de contrastes!

                                                                 Imagem: Tumblr



Natal é um tempo agitado. Enquanto alguns rodam freneticamente em busca de presentes, gerando muitas vezes uma sensação de desconforto diante tantos gastos desnecessários, outros enfrentam uma verdadeira maratona em busca de adornos, luzes, árvores e tudo que possa acrescentar mais brilho e simbolismo a noite de Natal. 

Compreendo que fique difícil resistir aos apelos dessa veia comercial, ainda mais quando nos parece inesgotável. Isso sem falar na correria aos supermercados em busca das melhores iguarias e toda aquela ansiedade 
em torno da ceia. Mas enfim, todo esse estresse se justifica a mesa, com a apresentação de pratos impecáveis e saborosos, dignos de muitos elogios e excessos – geralmente de calorias.

Mas também há o Natal da introspecção, quando milhares de pessoas são tomadas por uma onda de questionamentos - e inclui-se aí até os mais objetivos e centrados, pois paira no ar um sentimento quase generalizado de inadequação, falta de laços e compromissos afetivos, carência de acolhida, muitas dúvidas e uma avalanche de outros sentimentos que vão gerando um desconforto e uma tremenda pressão interna.

Tudo isso talvez se dê, porque o Natal nos remete a um tempo de saudade e nostalgia. Bate aquela sensação de vazio, quase sempre originada por lembranças e passagens que nos fazem reviver momentos felizes de nossa infância, ou outro momento feliz do passado. E assim, essa sensação povoa nosso consciente e influencia nosso estado de espírito de novembro a dezembro, sendo que, para uns mais e outros menos. Porém, há uma saudade capaz de nublar até o mais ensolarado dos corações. Uma saudade doída, daquelas que dá um nó na garganta e secura na boca, mas que serve essencialmente para nos mostrar que distância e adeus, podem ser o grande pretexto para que façamos a diferença na vida de quem está por perto.

Mas por favor, não façamos do Natal um tempo de banalização das palavras. Amor, paz, solidariedade e fraternidade são jogadas ao vento. Ditas e repetidas à exaustão quando sequer são lembradas ou cultivadas no decorrer dos meses que antecedem a data. Palavras usadas por mera obrigação ou simples conveniência que quando chegam ao seu destino já estão totalmente desprovidas de sua verdadeira função, ou seja, estreitar e fortalecer laços. E pior, criando a falsa expectativa de que estaríamos mais generosos, sensíveis e afetivos. Pura balela!

Bom mesmo seria se o Natal fosse além de sua dimensão propriamente religiosa e comercial. Mas melhor ainda seria as pessoas expressassem umas as outras o seu bem querer, verdadeiramente, demonstrando que há sim uma dimensão divina em cada um de nós, e que não há necessidade de uma data em especial para celebrarmos o amor e todos os outros sentimentos que o Natal se propõe.
Mas enfim, o tempo vai passando e muita coisa vai mudando. 

E talvez eu não tenha mais os Natais de minha infância, quando ganhar um único presente era algo especial, mesmo que não fosse necessariamente um brinquedo. Quando a data não se caracterizava basicamente pelo excesso do consumismo. Quando valores como amor, amizade e família não eram substituídas por objetos e quinquilharias.
Mas eu acredito que ainda é possível resgatarmos todos aqueles prazeres. Basta nos concentrarmos naquilo que efetivamente nos fazia felizes para descobrirmos o óbvio: O encantamento de estar em família e o prazer de sentir-se amado e especial. Isso são coisas que presente nenhum é capaz de nos dar.  

Dalai Lama, que não celebra o Natal, mas como sábio e sensível que é, disse algo que para mim é a mais pura expressão do verdadeiro espírito de Natal:
“Só existem dois dias em que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro amanhã. Portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver!”