quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Sobre mulheres e lenços...

                              Jennifer Merendino - vítima de câncer


Mês passado viajei a Novo Hamburgo, minha cidade natal e, como de costume me hospedei na casa de minha prima. Ao chegar sou surpreendida por um convite: um evento social que aconteceria algumas horas mais tarde.Como não havia muito tempo, e ela não aceitava minha recusa, resolvo eu mesma dar um jeito em meu cabelo, pois certamente não conseguiria horário disponível em nenhum salão, muito menos próximo a sua casa. Então dei uma boa lavada, fiz uma touca e pronto! Em poucas horas estaria com o cabelo liso e arrumado. 




Mas aí surge um problema: não tinha roupa adequada para a ocasião. Era preciso sair e comprar alguma coisa. E para minha sorte havia um shopping bem próximo a sua casa. Então, coloquei um lenço na cabeça e fui as compras.
Mas mulheres usando lenço - ao menos na cabeça - não circulam muito por aí, já perceberam? Pois é, eu saí e posso afirmar que é preciso uma boa dose de coragem para fazê-lo. Mas não porque eu tenha algum problema com relação ao uso de lenço na cabeça. Nada disso, tanto que saí. Ocorre que, conforme eu circulava pelas lojas, aos poucos ia percebendo que os olhares eram todos para mim, ou melhor, para nós: Eu e o lenço! Era como se eu portasse uma placa, e nela estivesse escrito: Sim, tenho câncer! A maioria das pessoas me olhavam sem disfarces, enquanto que outras disfarçavam encondendo-se atrás de seus óculos escuros. 
Era possível perceber que cochichavam e desviavam os olhares quando encontravam o meu, o que me fez sentir incômoda, com uma vontade súbita de me tornar invisível.

E não parou por aí. Aquele constrangimento foi tomando corpo a medida que os olhares  cresciam e eram do tipo: Não quero fazer parte disso. Ou então: Ah, coitadinha, tão jovem e doente.

Incrível como é só alguém dizer ou parecer ter câncer para provocar uma comoção aterrorizada. Porém, mais incrível ainda é algumas pessoas sequer conseguirem falar o nome dessa doença. O estigma de doença fatal, associada a uma generosa dose de ignorância e somada ao preconceito - mesmo que seja por parte de uma minoria – é o que transforma essa doença nesse horror. As representações associadas ao câncer são na sua maioria negativas, cruéis e destrutivas. 

Quando se pensa na doença, independente do órgão acometido e de seus efeitos, há um conjunto de sentimentos que encontram-se diretamente associados. A mulher acometida pela doença não tem apenas o seu corpo modificado, mas também diferentes aspectos da sua vida social e afetiva.
Mas felizmente o câncer não é só uma vivência difícil, cheia de medos, angústia e até mesmo rejeição. Não, ele também é sinônimo de cura, coragem, determinação, persistência, luta, amor à vida e muito aprendizado.


E a primeira lição que tem a nos ensinar é que de nada adianta fugir ou negar. É preciso aceitar o que a vida oferece, e a partir daí criar as possibilidades necessárias para reformular os aspectos mais importantes para seguir vivendo. 

                                  
Naquele dia, nos corredores e lojas daquele shopping esbarrei em sentimentos que me fizeram vir aqui, e escrever a respeito. Só quem já passou por isso sabe o quanto é difícil. Portanto, se você não passou, então nem perca seu tempo tentando mensurar, pois certamente não conseguirá sequer imaginar a realidade de conviver com isso todos os dias. É doloroso demais.Minha ida a Novo Hamburgo tinha um único objetivo: Fazer meus exames de rotina, pois em 2009 fui diagnosticada com câncer cervical (colo do útero). Depois de tratado hoje estou curada. Faço exames regularmente, de seis em seis meses somente para controle.

O câncer me fez descobrir algo que só os guerreiros possuem: A vontade de vencer, pois não havia espaço para pensar de outra forma. Não havia fé que me permitisse outra opção. Através do câncer também descobri quem estava comigo para encarar o pior e quem poderia me abandonar ao primeiro sinal de perigo.