Felizes os que não esquecem...



O que mais pode haver por trás das velhas fotografias dos álbuns de família, além daquilo que conseguimos enxergar? O que elas não nos contam e não conseguem nos mostrar? 

Algumas vezes não basta ter somente uma boa percepção. A imagem além de vista tem que ser lida. Fotografia é como texto, ela nos conta uma história. E muitas vezes é preciso ler nas entrelinhas para poder desvendar seus múltiplos significados.

E ela sabe que há muito a ser contado... 

Com a intimidade de quem cresceu e viveu em cada detalhe da velha fotografia, sabe que há muito mais naquele cenário. Vai muito além do acentuado bucolismo e beleza que envolve o vazio que se vê. Então, enfatizando a necessidade de reavivar os anos de sua infância, ela se lança nas águas mansas daquele passado e nos conta como a vida ali decorria normalmente, sem sobressaltos, sem novidades.

Aos domingos as mulheres vestiam suas melhores roupas, iam à missa, faziam promessas e acendiam velas no pequeno oratório. A elas lhe cabia a tarefa de apaziguar desavenças, manter a casa em ordem e a comida na mesa, ordenhar o gado e cuidar dos menores. 


Nas tardes quentes de verão buscavam abrigo e conforto à sombra da grande árvore, lugar destinado não só ao descanso, mas também era ali que se dedicavam aos pequenos trabalhos manuais, como coser peças de vestuário, bordar, descascar favas e espigas, e tudo em meio a muita conversa e boas risadas.

À volta tudo era paz. Os gatos dormiam tranquilos, acomodados entre os pés das mulheres, enquanto que os cães corriam de um lado ao outro, acompanhando as crianças que brincavam de queimada. Era aprazível viver de modo tão simples. E todos se divertiam com o pouco que tinham. 

Mas diversão mesmo acontecia aos domingos. E disso ela lembrava com muito carinho. Após a missa toda vizinhança se reunia e tudo virava motivo de festa. E ela gostava daquele movimento. Gostava da conversa alta, da alegria estampada no rosto das pessoas, dos trajes domingueiro, dos amigos que chegavam para comer, brincar e confraternizar. Sem dúvida era o dia mais esperado, onde tudo e todos ganhavam sua atenção. 

Seus olhos corriam de um lado a outro na tentativa de acompanhar o movimento saltitante e colorido das cabeças das meninas que usavam lindos passa fitas, adornando tranças e rabos de cavalos. E era gente chegando que não acabava mais. O colorido se multiplicava. Os odores das comidas que aos poucos se ajeitavam sobre as mesas, se difudiam pelo ar.

E ela, curiosa como só tratava logo de espiar o arranjo de tantas gostosuras. Sua boca salivava. Mas ela era obediente. Sabia que não podia tocar na comida até que todos estivessem à mesa. E acatava sem questionar as instruções de sua mãe, que eram sempre as mesmas, mas nem por isso deixavam de ser repetidas.

E era uma infinidade de iguarias, todas dignas de deixar qualquer um com água na boca. Muitas preparadas a partir da carne mais tenra e suculenta dos animais que ali viviam, em seus próprios quintais. E tudo acompanhado de pães quentinhos, massa ao sugo e o vinho fresco. 

Naquele tempo crescer cercada por muitas mulheres - avó, mãe, tias, irmãs, primas - se aprendia rapidamente que cozinha e comida eram o centro de tudo. Era um espaço atraente e caloroso, onde de tudo acontecia. Conversas, sussurros, risadas, lágrimas, enfim, um mundo que ainda lhe era tão desconhecido, mas que entre o fumegar de uma panela e um cheiro e outro que dali brotavam, era o que faziam daquela casa um lar. 

Lugar de sua infância querida. Uma terra de abundância. Um lugar de vida simples onde todos cabiam e eram felizes. Uma casa que cheirava a malva, figo seco, café torrado, carne defumada e lenha queimando verde, custando a arder.

E voltar aquele tempo foi especial. Mas sua viagem terminava ali, do mesmo jeito que começou: Com a velha foto em suas mãos e um punhado de sentimentos no coração.