A Pietá que vive dentro de todas nós, mães e mulheres!

                       















Tempos atrás, a imagem acima circulou em vários canais de tv e internet, e agora ressurge na mídia como a foto premiada pelo World Press Photo/2011. Sem dúvida é uma bela foto, pena que tenha saído de um contexto tão ruim.

Alguns anos atrás tive o prazer de conhecer a Pietá de Michelangelo, e como não poderia deixar de ser, fiquei bastante emocionada com tamanha beleza e perfeição. Michelangelo conseguiu expressar de forma delicada e singela a pior tragédia que pode ocorrer a uma mãe: Ter nos braços o corpo do filho sem vida. 


Ocorre que assim que vi a foto premiada, automaticamente lembrei-me da Pietá de Michelangelo, pois foi inevitável não fazer comparações, já que elas se assemelham em vários aspectos.

Como a Virgem Maria que ampara seu filho morto nos braços, a foto mostra uma mulher muçulmana que ampara o corpo de um homem ferido, após violento protesto no Iêmen. 
E não importa quem ele seja. Pode ser seu filho, um familiar ou até mesmo um desconhecido qualquer, mas ainda assim, será o filho de alguém. 

Ambas as imagens resultam de dor e violência. Ambas retratam mulheres absorvidas por um desespero profundo e silencioso. Ambas são um pouco de todas nós, mães e mulheres que acolhemos nossos filhos no aconchego e proteção de nossos braços todos os dias. 

A foto premiada me emociona e me inquieta por sua força, pois apesar da invisibilidade de seu rosto, posso sentir sua emoção, compaixão e impotência diante do horror ao abraçar aquele corpo ferido e talvez sem vida. 

Uma desconhecida. Uma mulher sem nome e sem identidade, mas que o mundo conheceu através das lentes do fotógrafo Samuel Aranda, transformando-a em mais um importante testemunho de até onde o homem pode chegar.

Talvez você se pergunte o porque desse assunto, já que as noticias em torno dessa imagem já caíram no esquecimento. Mas talvez seja exatamente esse o motivo. Porque não dá para esquecer quando homens, mulheres e crianças viram números de estatísticas. Quando séculos se passam e as cenas se repetem. Quando o ódio, a ganância, a intolerância e o desrespeito transformam-se no combustível que gera tanta desgraça, conflitos intermináveis, guerras bestiais e matanças impiedosas.

Infelizmente os que se foram não podem voltar, muito menos ressuscitar, pois isso é coisa para o filho de uma Maria só. Para nós, simples mortais, só nos resta seguir em frente, aprendendo a lidar com a dor sem deixar que ela nos sufoque.