Muito cedo a vida ficou tarde demais para mim!

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          “Muito cedo a vida ficou tarde demais para mim" 
                            Marguerite Duras                                                               


Como chuva forte em dia de tormenta, como aguaceiro que destrói e aniquila, esvai-se assim, a vida da pobre menina.

Com seu mundo de cabeça para baixo, após roubar-lhe a inocência, arrancar-lhe as esperanças e a deixar entregue a própria sorte, então já não tendo mais o que destruir, a chuva se vai, levando consigo o melhor da pobre menina.

E assim começa sua história. E será contada aqui de uma forma não tão agradável nem tão feliz. Mas como lhe coube.
                                 
Era uma vez um lugar sombrio e assustador. Lugar onde criança alguma queria chegar. Lugar onde a infância se fazia noite e a escuridão imperava opressiva e esmagadora.

Nesse lugar sinistro e desafiador habitava um monstro cruel e grotesco. Uma criatura sem paz. Um ser que vagava pelas sombras da maldade patológica, a loucura certificada, a doença justificada - como se violência permitisse explicações ou justificativas. Um ser que vivia entre limites tênues e variáveis.

E ele vivia a espreita. Sempre com seu jeito rude e nervoso, impaciente ele esperava. Olhar atento, músculos tensos, mãos inquietas e voz alterada.

E ela reconhecia cada um daqueles sinais. 
E como ela odiava aquilo tudo. 
Odiava com todas as suas forças a violência que todos aqueles sinais representavam.

O ambiente era sempre tenso. Expunha seus piores dramas. E para ela já não havia mais saída, só destruição. E tudo o que ela mais queria era poder mudar sua história. Mas não tinha voz

Eles eram dois extremos de uma mesma história. Uma ponte frágil e curta que ora aproximava, ora afastava.

Talvez um dia ela entenda os abismos de seu pai. Seus delírios mais profundos e suas andanças a outras dimensões.

O monstro daquela menina não vivia em baixo de sua cama, dentro de um velho armário ou em algum lugar qualquer de sua imaginação. Ele era vivo e real. Habitava entre o mal e a bondade que raramente dava mostras de sua existência. Habitava no abismo imenso que a decepção escavou lenta e dolorosamente. Habitava nos incontáveis conflitos, nos sentimentos contraditórios, 
nas atitudes condenáveis e no limbo da incerteza inquietante.

Mergulhar no passado e evocar a infância vivida ao lado do pai é como espinho na carne. Dói, machuca e incomoda. Durante muito tempo inutilmente ela tentou lutar contra esse passado, e muitas vezes ingenuamente anunciou o seu fim. Mas ele só se deu quando ela finalmente entendeu que quando não compreendemos a dor, ela nos dilacera, mas quando entendemos seus fins, ela nos fortalece.