E se você morresse amanhã...

                                                           


E se você morresse amanhã, o que encontrariam em suas gavetas? 

Hoje me deparei com essa frase entre tantas outras, e confesso que ela rondou meu pensamento, ganhou espaço e me fez sentir um certo incômodo, pois não pretendo me tornar uma senhorinha saudosa, daquelas que ficam debruçadas sobre o passado, lembrando o que poderia ter sido, e não foi.

E sempre que ouço alguém falando a respeito de algo que sonha fazer, mas não faz, não porque não queira, mas sim porque ainda não despertou para o fato de que intenção é um campo de possibilidades realizáveis, mas que depende somente de nós mesmos, percebo então o quanto deixamos de viver.

Sendo assim, chego a seguinte conclusão: Não vasculhe minhas gavetas. Não perca seu tempo, pois nada irá encontrar. Se me queres, então fique comigo agora. Suas chances são bem maiores hoje do que me encontrar amanhã, no fundo de uma gaveta qualquer. Aproveite os momentos que a vida nos contempla no agora, pois isso sim, poderá nos trazer a chance de aproveitarmos plenamente cada coisa.

Mas se mesmo assim, um dia você quiser perambular por minhas gavetas e remexer em meus guardados, faça, mas o máximo que você irá encontrar serão meus objetos órfãos, e já tão inúteis. Apenas testemunhos do meu fim. 

E de nada adiantará ingressar em viagens sentimentais entre memórias e quinquilharias, porque lá não vou estar. 
Recuperar um passado perdido nas brumas de uma lembrança não irá me trazer de volta. Nem tão pouco os meus sonhos, emoções, ou tudo aquilo pelo qual meu coração bateu um dia.

Aí você sentirá saudade. E tudo o que você terá, será o silêncio de minha companhia em uma foto qualquer. Meu corpo oco, frio e vazio. Aí minha insônia será sua. E no nascer do dia você ouvirá os primeiros carros passarem, as primeiras janelas se abrirem. E a noite, ao voltar para casa, eu não estarei a te esperar. Então a única companhia será a sua. Aí você entenderá que a vida passa, e que as pessoas não são eternas. 

Portanto não adianta regar flores mortas. Tão pouco sementes secas, porque dali nada brotará. 

Por isso me despeço do lixo e inutilidades que guardo nas minhas gavetas para poder viver plenamente o agora, pois ele é minha garantia de que estou viva, pulsante, cheia de intenções e vontades para concretizar.