Quando a palavra acolhe...

                                                                      Fonte: web

Gosto de escrever, sempre gostei. Acho que meu prazer pela escrita começou no momento em que aprendi a conhecer as letras, no momento em que descobri que juntas formam uma ideia. E então, desde cedo passei a usar a escrita como refúgio. Um lugar habitável e seguro onde pudesse depositar minhas lembranças, celebrar a vida e desafiar a dor, pois é na escrita que me apego as memórias, organizo meu pequenino mundo e dou sentido a imensidão de pensamentos que habitam em mim.

Penso que escrever não seja só o ato de registrar a palavra. Vai muito além, pois pode ser quase desafiador, já que ao escrever precisamos ultrapassar o vazio da página em branco, dar vida e liberdade necessária para as palavras fluírem livremente e encontrarem seu verdadeiro significado e forma. 

E é aí, na complexidade desse encontro que consigo me desvencilhar do imenso emaranhado de fios tortos, partidos e desgastados que é feita minha vida. É através dessa junção de letras e palavras que me liberto e encontro força, cumplicidade, intimidade e o acolhimento necessários para dar nome aos meus sentimentos, emoções e fantasmas.

É no silêncio da escrita que dou vida aos meus guardados, acalmo as vontades inesperadas, silencio as vozes que latejam nas entrelinhas, alivio as tensões do dia a dia e me desfaço de tudo que me oprime, sufoca e degrada. 

É nesse momento de total intimidade que encontro o caminho para transitar entre a ingenuidade que já se foi, e a realidade que se faz presente em toda sua essência, tal qual ela é e pode ser. Uma realidade as vezes dura, fria e ardilosa. 
Mas, se por um lado a palavra me conecta tão profundamente com todos os fragmentos melancólicos e duros da minha vida, por outro, com uma dose generosa de lirismo e poesia me acolhe, e sem exageros me reconcilia com o sorriso, me devolvendo o encantamento de evocar pessoas, rever lugares, contar histórias e expressar meu amor na intenção de compreender e ser compreendida. 

Escrevendo posso atingir o que era inatingível, ver o que estava oculto e a crer no que era só fantasia.
E mesmo que eu quisesse não conseguiria manter-me distante da escrita. Ela tornou-se grande para mim. Tão grande ao ponto de trazer para perto o que era distante. Trouxe luz onde havia escuridão. Trouxe ordem onde só havia caos.

A cada página que inicio, uma interrogação evidencia o medo do desconhecido. Porém a cada página que finalizo, mais me aproximo do caminho que leva ao desfecho, caminho esse que só reconhece aquele que já se perdeu por tantos outros.

Enfim, escrevo porque gosto. Escrevo movida pelo que sou e pelo que me tornei ao longo dessa caminhada. Escrevo pelos sentimentos perdidos, pelos sentimentos ganhos e pelos sentimentos que espero um dia reencontrar. Escrevo porque acredito que as palavras podem tocar e transformar.