O Chamado


                                                                          


Ainda que a contragosto, ela se levanta. Com a intimidade de quem conhece o lugar, caminha pela penumbra e vai em direção a janela, onde pequenos fragmentos de luz atravessam as frestas, denunciando que já era dia. 

Pacientemente ela recolhe as cortinas, abre a janela, e permite que a penumbra se desfaça, revelando sua silhueta esguia e delicada. Há tanta luz no pequeno quarto, que ela pode visualizar até a mais minúscula partícula de pó, suspensa no ar. 

Aos poucos, toda aquela luminosidade vai transformando-se em um calor gostoso e acolhedor. 
Ela, sentindo o aconchego do momento, recusa-se a sair. Volta até a cama e, com movimentos lentos e ainda desordenados, tenta acomodar-se. Isso feito, suaves suspiros escapam-lhe por entre os lábios. São tão leves e compassados, que parecem saídos do mais proundo de sua alma. 

Ela adora o aconchego de seu quarto. Ao menor sinal de perigo, é ali que ela quer estar. É no pequeno aposento que suas angústias são abrandadas. 
Mas ainda que reconfortante e terapêutico, ela sabe que deve levantar. Então, num ímpeto toma coragem, avalia o trajeto até o espelho, e segue em sua direção. Mira-se por alguns segundos e, na tentativa de arrumar o seu cabelo em desalinho, corre seus dedos por entre os longos e sedosos fios, os separando por mechas, como se fizesse uma espécie de trança. E assim permanece sem pressa. 

E talvez permanecesse assim, perdida em seus pensamentos em frente ao espelho, não fosse o ruído insistente de seu estômago, alertando que já é hora de descer e preparar o café. Ela então finaliza seu cabelo, busca alguma coisa confortável para vestir, escova os dentes, e finalmente desce as escadas em direção a cozinha.

Porém, antes de chegar é interrompida pelo mundo lá fora, pois 
ao passar em frente a janela, não pôde deixar de perceber que algo novo acontecia em seu jardim. Decidida a saber do que se tratava, prontamente serviu-se de uma xícara de café, e foi até a porta.

Fazia um silêncio profundo naquela manhã. Tão profundo que era quase possível escutar o mais suave dos movimentos, como o de seus delicados pés, ao deslizar-se e mover-se pelo velho piso de madeira.


Não havia pressa. Não havia angústias naquela manhã. Somente silêncio.

Chegando à porta, abriu-a. Então uma brisa leve e fresca tocou-lhe a face. Era suave e muito delicada. Talvez ainda um pouco gélida, porém trazia consigo um adorável aroma de lavanda, o que ela imediatamente identificou, ao senti-lo entrando por suas narinas e percorrendo seu corpo, até que finalmente invadisse seus pulmões, deixando-a inebriada de tanto prazer, enquanto que o sol, timidamente tocava-lhe a pele, como ondas suaves e macias, banhando seu corpo com luz e calor. 

Tudo parecia surpreendentemente mágico e especial. Por isso ela continuou a observar. E o que viu foi revelador.

Ela vive na casa a muito tempo, porém somente naquele dia deu-se conta que ali, em seu próprio quintal existia um lindo jardim. Intrigada perguntou-se: Ele sempre esteve aqui? Se esteve, por que só hoje eu consigo vê-lo? Será que é porque o dia está bonito, o céu límpido e o sol brilha com toda sua força? Pode ser, pensou, mas muitos dias assim já aconteceram antes, e eu nada vi.

Depois de hibernar durante o intenso inverno, finalmente a natureza começava a renascer. O jardim parecia incrivelmente vibrante e intenso. Pássaros cantavam com extraordinária beleza, e o vento gentilmente encarregava-se de levar até seus ouvidos, belas e doces melodias. 

Beija-flores eram atraídos pelas mais diversas cores e néctar das inúmeras flores que desabrochavam nos canteiros. Sabiás laranjeiras cantavam magistralmente anunciando que era chegado o tempo de acasalamento. Bem-te-vis, tico-ticos, pardais e toda classe de pássaros cantavam e regozijavam alegres e saltitantes por entre árvores, arbustos e canteiros.

Tomada por um desejo intenso de assimilar tudo o que acontecia e desfrutar de toda aquela deliciosa experiência sensorial, ela prontamente decidiu abandonar sua rotina diária e render-se aos prazeres daquela manhã tão mágica e especial. 

Olhou para os lados, procurou pela cadeira mais próxima e foi em direção ao jardim e sentou-se em meio ao canteiro de lavandas, e relaxou. E pela primeira vez, depois de muito tempo ela sentia-se parte de alguma coisa. Sentia-se viva, inteira e presente.

Com o sol cada vez mais quente, pequenas gotículas de suor começavam a brotar de sua pele branquinha e macia. Mas ela não se incomodou. Estava tão embriagada por toda aquela atmosfera de encantamento, e a deliciosa fragrância suave que pairava no ar, que nem se deu conta.

Não sei precisar o tempo que ela ficou ali. Silenciosamente, apenas observando a vida a sua volta. Mas sei que foi tempo suficiente para fazê-la perceber que outras portas deveriam se abrir, para que a vida, enfim, pudesse fluir. 

Talvez ela ainda não tivesse clareza do que realmente queria, mas naquele momento ela sabia que não poderia mais viver ao meio, partida, dividida e incompleta. Porque ela não era assim. Mas sentia-se assim.

O fato é que toda aquela atmosfera poética soava como um chamado. Como se a vida em forma de um sopro em seu ouvido lhe gritasse, e implorasse: Desfaça todos os nós. Eles apertam e sufocam. Deixe o ar entrar e apenas respire. Despeça-se de tudo aquilo que precisa deixar partir, para só então celebrar e aceitar tudo aquilo que precisa vir. Pare de fugir e esconder-se de tudo e todos. Liberte-se dessa vigília constante e irritante. Liberte-se dessa vidinha rígida, chata e triste. Vidinha essa que só tende a se estreitar e te apagar.

Definitivamente essa não era a vida que ela queria. 
Então, no silêncio ela permaneceu. Mergulhada em seus pensamentos e refletindo sobre a única certeza que tinha: Não queria mais perder tempo buscando explicações lógicas e racionais para tudo. Não queria mais sentir-se melancólica e com a triste sensação de que sua própria vida não lhe pertencia.Era preciso libertar-se de seus temores, vencer suas resistências, reavaliar suas crenças, e sair da mesmice em que se encontrava. 

Porque assim como o jardim, ela também precisava florescer para novamente recolocar sua vida em movimento. Precisava dar os primeiros passos para libertar-se das ideias pré-concebidas, das tradições mal explicadas, dos costumes sem sentido, e de tudo mais que arrastamos inutilmente ao longo da vida.

E foi então que ela levantou-se, apoiou sua xícara sobre a cadeira, e um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. Não era só um dia bom, mas sim um dia espetacular e revelador, pensou.

Naquela manhã, ao abrir a porta que a levou até o jardim, algo mágico aconteceu para mostrar-lhe o caminho a ser seguido. Foi como um lembrete, que de uma forma muito sutil chegou para mostrar o quanto ela havia se desviado de sua essência. E se ela não conseguia ver o jardim, era porque estava presa aos seus medos e ao seu cotidiano, pois o  jardim sempre esteve lá, esperando pacientemente por ela, assim como todo o resto. 

Mas as vezes não conseguimos ver. Por isso, felizes são aqueles que reconhecem os valores revelados através da fragilidade humana. Os que reconhecem que a vida pode seguir muito bem sem precisar da dureza da razão. Os que reconhecem e são capazes de evoluir através dos duros golpes que a vida nos dá, assim como são perfeitamente capazes de reconhecer e aceitar quando ela gentilmente quer nos ensinar.