Nem você sem mim, nem eu sem você...

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Nem você sem mim, nem eu sem você / Ni vous sans moi, ni moi sans vous
O "Lai da Madessilva" Marie de France, Século XII




Chega uma época na vida onde tudo o que temos, é o tempo já vivido. E felizes são aqueles que reconhecem nesse tempo a intimidade dos anos de delicadeza, amor e ternura.

Sem efeitos especiais, photoshop ou qualquer bela paisagem como pano de fundo, a foto me encanta e fala por si só: Um casal de idosos que aborda e revela delicadamente o fluxo do tempo. 

A imagem me fala dos encontros, movimentos e de todas as experiências por eles compartilhadas. E eu me rendo completamente a essa linguagem, pois não é preciso ser som para ser ouvido, basta que eu mantenha meu coração aberto e em silêncio para que o milagre aconteça.

E nessa linguagem única e sensível ouço as vozes de seus passados. Elas sussurram. Discorrem entre a força do amor cotidiano e as memórias de duas pessoas que decidem envelhecer juntas, com a sabedoria e a generosidade de quem zela pelo amor que cativa no outro.

E diante tamanho cuidado o tempo se rende. Não permite que se percam, ao contrário, conspira para que se encontrem no olhar que inexplicavelmente ainda atrai, no carinho dos afagos singelos, no conforto do abraço carinhoso, nos adoráveis gestos gratuitos e genuínos, na amenidade gostosa e corriqueira, na cumplicidade silenciosa, na intimidade de quem reconhece no outro seus pequenos tesouros.

Poderia então o tempo ser tão injusto e impiedoso? Abordo a fotografia. Procuro por vestígios, algo que me mostre o outro lado daquela imagem. Aquele que não mostramos e que geralmente transita entre crises e questionamentos, quase sempre gerados pelo fatídico tempo. Mas novamente só o que vejo são pessoas que me parecem felizes e completas.

Mas minha mente não se esgota. Sinto vontade de vasculhar suas gavetas, abrir seus armários, remexer suas caixas e revirar seus guardados em busca de algo. 

Mas isso não se faz necessário. Não é preciso buscar por nenhum testemunho quando a imagem se basta. Ela por si só me mostra, que mesmo diante do desgaste de rostos e corpos envelhecidos pelo tempo, percebe-se que para eles esse tempo não destrói ou corrói. Ele apenas muda. 

E agora já não se faz mais necessária a cobrança por romantismo, paixão, atenção ou sexo, pois aquela súbita e descontrolada torrente de emoções, agora dá lugar a momentos mais ternos e tranquilos. Já não existe mais a necessidade de enfatizar tudo, o tempo todo.

E é nesse cenário, permeado pelo tempo, rodeado de lembranças de um amor que sobrevive às intempéries da vida que me dou conta de que o tempo não é vilão, injusto ou impiedoso. Ele é a força que sustenta, transforma, recupera e reconstrói.

Por isso, sejam eles fortes como uma ventania, ou doces como uma brisa gostosa, a imagem me faz pensar que envelhecer ou morrer nem sempre representa o fim de um grande amor, mas a distância que permitimos que se estabeleça, sim. Isso m
ata lento, gradual e dolorosamente.