segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Beleza Plástica

                                                         
Ontem assisti ao filme "Segredos de Sangue" com Nicole Kidman e achei estranha a expressão plastificada, sem emoção e sem espontaneidade com que ela atuou do inicio ao fim.

Gente, o que ela fez?
Ela continua linda, sem dúvida, mas eu ainda prefiro um sorriso expressivo, daqueles que acentuam as ruguinhas e evidenciam os pés de galinha a uma cara lisa, descaracterizada de seus traços, e que não me passa emoção.

Hoje, com a facilidade da manipulação da imagem, seja por meio do puxa, estica, preenche, define, aspira, corrigi, qualquer um pode vir a parecer com quem bem entender, como se apenas parecer mais bonito fizesse alguma diferença de quem realmente se é.

Envelhecer é uma coisa natural, sem contar que minha história está toda ali, registrada em cada marca, cada ruga, cada sinal de meu rosto. Mas para algumas pessoas envelhecer é tão assustador que simplesmente não aceitam o que a existência lhes dá. Negam e repudiam toda e qualquer marca deixada pelo tempo. Como se existir de forma natural fosse impossível, uma espécie de castigo que os impede de serem verdadeiramente felizes, ou pior, como se precisassem correr ao encontro do espelho toda vez que quisessem saber quem realmente são.

Não estou aqui querendo fazer apologia a velhice, nada disso! Penso que todos nós em algum momento procuremos algum referencial de beleza. Quem não quer ser ou sentir-se bonito? Isso é normal e saudável. O problema reside no fato da pessoa apenas querer sentir-se bonita e nada mais.

A preservação do corpo deve estar presente em qualquer idade, mas para isso não precisamos criar expectativas exageradas nem tão pouco cometer loucuras em nome da beleza. Achar um defeitinho aqui, outro ali, isso é normal. Eu mesma já passei por procedimento estético cirúrgico depois do nascimento de minhas filhas. Não me sentia confortável, julguei necessário e o fiz. E fiquei muito satisfeita, pois acredito que o bom resultado está na harmonia, e não na perfeição, muito menos nas interferências radicais, profundas e irreversíveis.

Cada pessoa sabe o que lhe incomoda, então se puder, faça. Só não faça da cirurgia plástica uma banalização, ou seja, para enquadrar-se a um padrão chato e nada original somente na tentativa de satisfazer o outro, ser aceito, ser parte de um grupo ou sentir-se admirado. Ou então, no pior dos casos submeter-se a uma cirurgia estética para sanar um mal-estar que, mesmo que referido ao corpo, nada tenha a ver com ele. O que para mim soa como um pedido de socorro, uma tentativa frustrada de aplacar angústias e inquietações de um corpo que se legitima, não pelo seu conteúdo. 

A verdade é que podemos puxar, esticar, maquiar, enfeitar, camuflar, porém mesmo assim um dia a máscara cai revelando tudo aquilo que se esconde atrás da estética de fachada, pois beleza não está somente naquilo que se vê, mas principalmente naquilo que se sente. E de gente bonita e sem conteúdo o mundo está cheio.

Infelizmente vivemos em uma sociedade que determina padrões, que dita regras e impõe comportamentos, mesmo que muitos deles nos façam mal. Vivemos a era das ilusões, da confusão de identidades e do belo em tempo integral, acreditando equivocadamente em algo que só a juventude pode nos dar. Sendo assim, acreditamos e alimentamos a indústria da felicidade. Viramos seus consumidores vorazes esquecendo que a felicidade verdadeiramente dita sempre foi muito mais do que essa ideia de plástico. Que ela é um estado de harmonia e equilíbrio – muitas vezes esquecida e mal usada - e não de alienação em relação a si ou ao outro.

Mas diante tantos discursos prontos, tantas falsas necessidades, tantas verdades preestabelecidas é muito fácil nos deixar levar pela magia da felicidade plastificada. Ela enche os olhos e alimenta o ego. Todos os dias a mídia nos oferece inúmeras cenas com gente bonita, bem sucedida, feliz, rica, poderosa, enfim, um retrato perfeito onde é vendida erroneamente a ideia de que tudo isso é acessível a todos, quando na verdade não é.


A triste conclusão que chego de tudo isso? Importante hoje não é a salvação de nossas almas para o fatídico dia do julgamento final, mas sim a de nossos corpos, já que a rejeição social dói mais que as chamas do fogo do inferno.