Beleza Plástica

                                                         

Ontem assisti o filme "Segredos de Sangue", com Nicole Kidman e achei estranha a expressão plastificada, sem emoção e sem espontaneidade que ela atuou do inicio ao fim. 

Gente, o que ela fez? Ela continua linda, sem dúvida, mas eu ainda prefiro um sorriso expressivo, daqueles que acentuam as ruguinhas e evidenciam os pés de galinha a uma cara lisa, descaracterizada de seus traços e que não me passa nenhuma emoção.

Hoje, com a facilidade da manipulação da imagem, seja por meio do puxa estica, preenche, define, aspira e corrige, qualquer um pode parecer com bem entender, como se apenas parecer mais bonito fizesse alguma diferença de quem realmente se é.

Envelhecer é uma coisa natural, sem contar que minha historia está toda ali, registrada em cada marca, cada ruga e cada sinal do meu rosto. Mas para algumas pessoas envelhecer é tao assustador que simplesmente não aceitam o que a existência lhes dá. Negam e repudiam toda e qualquer marca deixada pelo tempo. Como se existir de forma natural fosse impossível. Uma espécie de castigo que os impede de serem verdadeiramente felizes ou pior, como se precisassem correr ao encontro do espelho toda vez que quisessem saber quem realmente são.

Não estou aqui querendo fazer apologia à velhice. Nada disso. Até porque penso que todos nós em algum momento procuremos algum referencial de beleza. Por que quem não quer ser ou sentir-se mais bonito? Isso é normal e saudável. O problema reside no fato da pessoa apenas querer sentir-se bonita e nada mais. 

A preservação do corpo deve estar presente em qualquer idade.Mas para isso não precisamos criar expectativas exageradas nem tao pouco cometer loucuras em nome da beleza. Achar um defeitinho aqui, outro ali é normal. Eu mesma já passei por um procedimento estético cirúrgico depois do nascimento de minhas filhas. Não me sentia confortável, julguei necessário e fiz. E fiquei muito satisfeita, pois considero que o bom resultado está na harmonia e não na perfeição. Muito menos nas interferências radicais, profundas e irreversíveis.

E cada pessoa sabe o que lhe incomoda. Então, se puder, faça. Só não faça se for para enquadrar-se a um padrão. Ou então, no pior dos casos submeter-se a uma cirurgia estética para sanar um mal estar que, mesmo quando referido referido ao corpo nada tem a ver com ele. O que para mim soa como um pedido de socorro, uma tentativa frustrada de aplacar angústias e inquietações de um corpo que se legitima não pelo seu conteúdo.

A verdade é que podemos puxar, esticar, maquiar, enfeitar, camuflar, porém, mesmo assim um dia  máscara cai revelando tudo aquilo que se esconde atrás da estética de fachada, pois beleza não está somente naquilo que se vê, mas também naquilo que se sente. E de gente bonita e sem conteúdo o mundo está cheio.

Infelizmente vivemos em uma sociedade que determina padrões, que dita regras e comportamentos, mesmo que muitos deles nos façam mal. Vivemos a era das ilusões, da confusão de identidades e do belo em tempo integral, acreditando equivocadamente em algo que só a juventude pode nos dar. Sendo assim, acreditamos e alimentamos a indústria da felicidade. Viramos seus consumidores vorazes muitas vezes esquecendo que a felicidade verdadeiramente dita sempre foi muito mais do que essa ideia de plástico, pois ela é um estado de harmonia e equilíbrio. E não de alienação em relação a si ou ao outro.

Mas diante de tantos discursos prontos, tantas falsas necessidades, tanta verdade preestabelecida fica muito fácil nos deixarmos levar pela magia da felicidade plastificada. Ela enche os olhos e alimenta o ego. Todos os dias a mídia nos oferece inúmeras cenas com gente bonita, bem sucedida, feliz, rica, poderosa, enfim, um retrato perfeito onde é vendida erroneamente a ideia de que tudo isso é acessível a todos, quando na verdade não é.

E sabe qual a conclusão a que chego de tudo isso? Que o importante hoje não e a salvação de nossas almas do fatídico dia do julgamento final, mas sim a de nossos corpos, já que a rejeição social dói bem mais que as chamas do fogo do inferno.