Mais amor, por favor!

                             

Todos os anos passo uma temporada em São Paulo, e ocorre sempre a mesma coisa: Quando penso que já não há mais espaço para perplexidade e surpresas, novamente me deparo com as inúmeras e intermináveis mazelas da existência coletiva. 

Hoje, em um rápido passeio pela cidade a frase “Mais amor, por favor”, ganhou minha atenção. Uma frase simples e pequena, porém com uma conotação imensa, do tamanho da cidade de São Paulo. 

Seria um apelo, um lembrete ou um pedido de socorro? 
Ao andar pela cidade, vejo e entendo que a solidão e o vazio das pessoas, também pode ser o disparador para gerar esse amor como falta, pois o que vejo pelas ruas, são vidas fragmentadas. Pano de fundo do descaso, e abandono moral e social. 

São pessoas que perderam sonhos, crenças, famílias, vidas e também sua dignidade. Verdadeiras hordas de zumbis que cambaleam pelas ruas e se escondem em um buraco qualquer, onde possam chamar de seu. E assim vivem. Dia após dia escarafunchando entre o lixo e dormindo em colchões imundos, fétidos e úmidos - em alguns lugares é possível ver pessoas praticando sexo ou consumindo drogas. E está tudo ali, para quem quiser ver.

Ao andar pelas ruas de São Paulo, principalmente pela regi
ão central, e me deparar com essa dura e cruel realidade, inevitavelmente me pergunto: Onde está a beleza dessa cidade? Porque eu não a vejo. 

O que vejo é uma cidade que maltrata, onde o trânsito é caótico, o crescimento é descontrolado, desordenado e imperfeito. O transporte é indigno e desumano. As ruas são sujas e mal cuidadas. A fachada de inúmeros edifícios históricos que deveriam ser restaurados e preservados, pois são parte importante da historia da cidade, estão destruídos ou pichados. Fruto do vandalismo e da falta de cuidado. A poluição que só cresce. A violência que oprime, enfim, poderia citar tantas outras coisas que certamente também contribuem e geram essa falta de amor que tanto se reclama.

A verdade é que eu procuro, mas infelizmente não encontro a beleza dessa cidade. Porque só o que vejo são pessoas correndo, apressadas, agitadas e melancólicas. Pessoas vivendo sua fragilidade ao extremo, e procurando no amor uma resposta. Pessoas desprotegidas e abandonadas por seu governo e sociedade. Pessoas tão marginalizadas que ingenuamente buscam no amor meios para a construção de sua sobrevivência, agarrando-se a esse sentimento como esperança de que não sejam só mais um esquecido no meio da multidão. 

Mas seria realmente possível esquecê-los ou não vê-los, quando são vítimas de um fenômeno social cada vez mais forte e estão por todos os lados da cidade? 


A verdade é que vivemos hoje a tão falada e discutida modernidade líquida, como Bauman já definiu muito bem. Uma vida egoísta e individual. Um mundo onde o amor próprio representa a forma mais individualista de dar valor somente a si próprio, sem entender que a vida em sociedade vai muito além da realização de nossos próprios interesses.

E a vida moderna em São Paulo, assim como em outras grandes cidades, é marcada pela banalidade das relações humanas, o que gera fragilidade, violência, insegurança, abusos, transgressões, abandono, desrespeito, desamor e, por fim, o caos e a desordem, seja na cidade ou no seu cidadão.

E São Paulo, a maior cidade do hemisfério sul, a metrópole tão evoluída economicamente me mostra que na rotina do seu cotidiano, a vida real de uma grande cidade nem sempre pode ser descrita como um belo cartão postal. Que a vida real muitas vezes passa longe do glamour, do charme, do luxo e poder. 

Que a vida em uma grande cidade pode ser muito triste e dolorosa, pois quando nos sentimos abandonados, nada pode ser mais solitário do que estar no meio da multidão e sentir-se invisível.

E quanto a beleza de São Paulo, eu sigo procurando...