terça-feira, 20 de agosto de 2013

Para Beatriz...


                                                      

Hoje acompanhei minha filha até o Laboratório Delboni Auriemo no bairro da Mooca, em São Paulo. Lá chegando, conheci Beatriz. Foi um encontro ao acaso, daqueles que nos pegam desprevenidos e nos mostram o quanto valorizamos bobagens, complicamos a vida e nos pegamos em coisinhas pequenas deixando tão pouco espaço para compreender o que realmente seja dificuldade, já que estamos sempre acreditando que os nossos problemas são mais importantes e urgentes que o do outro, quando na maioria das vezes não é bem assim.

Meu encontro com Beatriz não durou mais de uma hora, porém foi tempo suficiente para ser confrontada por emoções complexas e uma sensação aflitiva. Sentia-me como se estivesse pendurada no parapeito de uma janela no trigésimo andar e, na eminência de cair a qualquer momento.

Beatriz é uma menina de no máximo uns cinco anos. Linda como muitas meninas que vemos diariamente porém, com a realidade dura e concreta de uma menina que não move um músculo do pescoço para baixo, necessitando inclusive da ajuda permanente de um cilindro de oxigênio para poder respirar.

Observo Beatriz e percebo que sua incapacidade de mover-se e falar fazem com que seus pequeninos olhos sejam sua porta de comunicação. É através deles que se expressa em uma linguagem que seguramente somente seus pais conheçam e reconheçam o sentido de cada mirada.

E eles ali estavam. Sentada ao seu lado a mãe, uma bela e jovem mulher que mantinha os olhos fechados enquanto carinhosamente acariciava a mãozinha de Beatriz. O pai, um pouco mais além e, certamente tentando distraí-la, apontava a imagem de um castelo em uma das paredes e dizia sorridente: "Olha filha, veja lá em cima na torre! Você vê a princesa? Daqui a pouco ela vai sair!" 

A mãe permanecia de olhos fechados, enquanto que os meus marejados. 
Presenciar a dor alheia é difícil e pode ser até doloroso. Mas difícil mesmo é entender onde mora o pesadelo. E o pesadelo daquela família não reside na deficiência, mas sim em suas consequências, ou seja, na sensação de impotência que seguramente deve consumi-los dia a dia, roubando-lhes o sonho de ver a filha crescer saudável, sendo capaz de projetar um futuro promissor e uma vida longa pela frente. Aquilo tudo que tanto queremos para nossos filhos. 

Mas para Beatriz não existe esperança de uma vida longa, e isso machuca. Mas por outro lado me conforta pensar que Beatriz sequer entenda o significado disso tudo. E quando penso na complexidade do comprometimento de suas funções corporais, no alto grau de sua dependência para o desempenho das coisas mais básicas em suas atividades cotidianas, então me pergunto: Como eles conseguem? Não deve ser fácil compartilhar de todas as dores e dificuldades do lado mais frágil da condição humana, principalmente tratando-se de sua filha. 

A deficiência da pequena Beatriz me fez pensar na grandiosidade do amor, generosidade e respeito de seus pais por aquele serzinho tão frágil que apesar de todas as suas limitações, luta para viver. 


Eu jamais vou esquecer daquele dia, pois Beatriz e seus pais me mostraram que quando um corpo já não responde a qualquer estímulo que seja, o coração sim! Ele pode ser tocado e sentido. 


E isso não me resta dúvidas de que já alcançaram. Inclusive o meu!