Para Beatriz...


                                                      

Hoje acompanhei minha filha ao Laboratório Delboni Auriemo, localizado no bairro da Mooca, em São Paulo. Lá chegando conheci Beatriz. Foi um encontro ao acaso, daqueles que nos pegam desprevenidos e nos mostram o quanto valorizamos bobagens, complicamos a vida, e nos pegamos em coisinhas pequenas, deixando tão pouco espaço para compreender o que realmente seja dificuldade, já que estamos sempre acreditando que os nossos problemas são mais importantes e urgentes que o do outro, quando na maioria das vezes não é bem assim.

Meu encontro com Beatriz não durou mais de uma hora, porém tempo suficiente para ser confrontada por emoções complexas e uma sensação aflitiva. Sentia-me como se estivesse pendurada no parapeito de uma janela no trigésimo andar, e na eminência de cair a qualquer momento.

Beatriz é uma menina de no máximo uns cinco anos. Linda, como muitas meninas que vemos diariamente, porém com a realidade dura e concreta de quem não move um músculo do pescoço para baixo, necessitando inclusive da ajuda permanente de um cilindro de oxigênio para respirar.

Observo Beatriz e percebo que sua incapacidade de mover-se e falar, fazem de seus pequeninos olhos sua porta de comunicação. É através deles que se expressa em uma linguagem que seguramente somente seus pais conheçam, e reconheçam o sentido de cada mirada.

E eles estavam ali. Ao seu lado a mãe. Uma bela e jovem mulher que mantinha os olhos fechados enquanto acariciava carinhosamente a mãozinha de Beatriz. O pai, no intuito de distraí-la, mostrava a imagem de um castelo desenhado com giz de cera em uma das paredes. E ele dizia: "Olha filha, veja lá em cima na torre. Você vê a princesa? Daqui a pouco ela vai sair!" Enquanto isso, a mãe permanecia de olhos fechados, enquanto que os meus marejados. 

Presenciar a dor alheia é difícil, e pode ser até doloroso. Mas difícil mesmo é entender onde mora o pesadelo. E o pesadelo daquela família certamente não reside na deficiência de Beatriz, mas sim em suas consequências, ou seja, na sensação de impotência que seguramente deve consumi-los dia a dia, roubando-lhes o sonho de ver a filha crescer saudável e capaz de projetar um futuro promissor. Tudo aquilo que todos nós desejamos para os nossos filhos. 

Mas para Beatriz não existe esperança de uma vida longa, e isso machuca. Mas por outro lado me conforta pensar que Beatriz sequer entenda o significado de tudo isso. 

E quando penso na complexidade do comprometimento de suas funções corporais, no alto grau de sua dependência para o desempenho das coisas mais básicas em suas atividades cotidianas, então me pergunto: Como eles conseguem? Não deve ser fácil compartilhar de todas as dores e dificuldades do lado mais frágil da condição humana, principalmente tratando-se de uma filha. 

A deficiência da pequena Beatriz me fez pensar na grandiosidade do amor, generosidade e respeito de seus pais por aquele serzinho tão frágil, que apesar de todas as suas limitações, luta para viver. 


Eu jamais vou esquecer daquele dia, pois Beatriz e seus pais me mostraram que quando um corpo já não responde a qualquer estímulo que seja, o coração sim. Porque ele sempre pode ser tocado e sentido. 


E isso não me resta dúvidas de que já alcançaram. Inclusive o meu!